January 14, 2006

sexta-feira, 13

Uma das mais giras superstições do bicho humano ocidental é de que a Sexta-feira 13 é um dia aziago. Vá-se lá saber porquê, mas que é assim, é. Mesmo quem não acredita na treta sabe que é assim.
Não se sabe qual a origem desta superstição. Há inúmeras teorias, que vão desde a mitologia nórdica e de uma partida de Loki até à relação com o aprisionamento dos Cavaleiros Templários no século XIV, passando por lendas hindus. O que é engraçado é que o "civilizado" humano do século XXI ainda vai em cantigas.

Quem acredita a sério no azar do dia sofre de Parasquevidekatriafobia, o que já de si é um azar tremendo ter uma doença impronunciável: não dá jeito nenhum dizer à mesa "sabe, eu sou Parasquevidekatriafóbico", o que levará o interlocutor a replicar "ah sim? coitado. Isso dói?" enquanto pensa "o gajo podia dizer isto depois de engolir o arroz-doce. Lá vai mais uma fortuna para o 5 à Sec".

January 06, 2006

empresas

Temos de decidir, de uma vez por todas, que tipo de país queremos ter. Se queremos uma democracia ocidental, liberal e capitalista, óptimo. Se queremos um regime "socialista", proteccionista e fechado, óptimo também. Não é possível é ter um bocadinho de ambos os regimes.

Tendo em conta que estamos inseridos num espaço político ocidental e liberal, a UE, as nossas opções ficam mais limitadas. Foi uma escolha que fizemos há 20 anos atrás, conscientemente, e agora temos de a seguir. Dentro deste tipo de regime não há espaço, por muito que custe a Manuel Alegre, para intervencionismo directo do Estado no tecido empresarial. O Estado é (ou deveria de ser) apenas um regulador da Economia, gerando regras equitativas que permitam um mínimo de justiça social e de livre concorrência, e desenvolver a Educação e a Justiça, principalmente, que criem as condições necessárias ao desenvolvimento global do país.
Assim, esta estúpida questão da participação da Iberdrola no capital da EDP não faz o menor sentido. Como não faz sentido que o Estado tenha participação, ou Golden Shares, nas empresas nacionais. Este tipo de proteccionismo do Estado não serve para absolutamente nada, senão para criar postos de trabalho para políticos na reforma. Viram-se bem as capacidades de gestão empresarial do Estado entre 1975 e 85. Paupérrimas.

As economias em crescimento na Europa, como a Espanha ou a Irlanda, por exemplo, não se caracterizam por terem no seu território sedes de grandes corporações. Crescem apenas porque os seus governos criaram as condições económicas, judiciais e de formação da mão-de-obra necessárias à atracção de capital estrangeiro e permitindo simultaneamente que as empresas nacionais crescessem o suficiente para terem a massa crítica necessária não só para serem "engolidas", mas também para se expandirem noutros mercado.

Se o Estado quer que as empresas nacionais continuem "em mãos portuguesas" tem realmente de intervir onde já o deveria ter feito há três décadas atrás: reduzir o seu peso na economia, acabar com o seu despesismo inconsciente, emagrecer radicalmente a administração pública, organizar, agilizar e tornar a Justiça eficaz, efectivar a colecta de impostos, diminuir a carga fiscal para níveis realistas e investir forte e seriamente na Educação e na Formação Profissional.

A receita é simples. Nunca mais encontramos é um cozinheiro eficaz.

January 02, 2006

Na semana passada (ou na anterior, já não sei) comprei a Visão. Garanto que é uma efeméride, porque normalmente basta-me comprar o Público ocasionalmente, consultar as notícias online e olhar para a SIC Notícias nos intervalos dos jogos de Playstation do meu filho (e meus). Às vezes ainda faço o esforço de ver a BBC World mas é raro. Mas desta vez não tinha trazido nada para ler à hora de almoço, nem ninguém a quem sarrazinar o juízo durante a refeição e, para além disso, a capa da revista era apelativa: tinha o Bono como ilustração e um flash a indicar, em grande, "Edição Para Guardar". Achei giro. Comprei.

Levei uma semanita, mais ou menos, para ler toda a revista (um Expresso, por exemplo, ocupa-me pelo menos quinze dias mas tem a vantagem de arder bem na lareira) e ao fim da dita semanita percebi porque é que a edição era para guardar. Pelo menos durante duas décadas. Não por fazer uma revisão superficial do ano que passou, ou por ter uma necrologia completa de personalidades conhecidas, mas porque foi talvez o exemplar publicado com mais gralhas, erros ortográfico e letras desaparecidas que alguma vez vi. É um autêntico festival de falta de profissionalismo, principalmente numa época em que qualquer processador de texto ou programa de paginação tem um correctorzito ortográfico e gramatical.
Será que custa muito fazer uma revisão do texto a publicar?

December 26, 2005

burp

E assim se passou mais um Natal. Os miúdos abriram as prendas em menos de três segundos, deram meia-dúzia de gritos histéricos e atiraram-se à playstation para experimentar as novidades, alguém recebeu meias e pronto.

A minha parte preferida do Natal é o almoço do dia propriamente dito. Quatro pratos de Farrapo Velho (ou Roupa Velha ou outro nome perfeitamente idiota para um dos meus pratos preferidos) profusamente regados com um Douro simpático - CARM Grande Escolha creio... a partir de um certo ponto o rótulo fica um bocadito desfocado. Ainda hoje pareço uma minhoca que engoliu uma bola de basquete.

Pró ano há mais.

December 23, 2005

jingle bells

Este Natal é talvez o mais atípico da minha vida. Eu que faço sempre as compritas da praxe no dia 24 a seguir ao almoço, desta vez despachei-as no dia 15. Eu que normalmente ainda estou no dia 24 às 18:30 a pensar no-qu'é-que-raio-é-que-vou-dar-à-minha-mãe-e-porqu'é-que-ela-tinha-de-me-pôr-neste-mundo!, tive uma súbita inspiração, uma iluminação!, no dia 14 que me revelou o que comprar a todos sem a menor hipótese de falhar o alvo.

Moral da história: este é o Natal mais chato de sempre. Falta-lhe a adrenalina costumeira, que só acaba à meia-noite e vinte, quando ninguém exclama "pijamas, João?!" com um ar indignado. Como sou tão religioso como o bacalhau demolhado, este Natal perdeu grande parte do seu interesse. Hélas.

Boas Festas a todos.

December 21, 2005

mais debates

Confesso que não vi o debate Cavaco/Soares na íntegra. Não tenho pachorra. Desagrada-me ouvir Soares apenas a criticar, a dizer mal, a tentar denegrir o adversário sem fazer aquilo que devia fazer: falar sobre o seu projecto, as suas ideias, como vê Portugal agora e daqui a cinco anos e como pode contribuir para essa evolução. Dizer mal só por si é fácil: basta ter um computador, um blog e dois dedos para teclar (como eu). Um candidato à presidência necessita de algo mais.

Cavaco não tem carisma, é um facto. É de todo inapresentável em qualquer meio de comunicação, seja pela aparência seja pelo tom de voz. É fácil embirrar com o personagem. Mas é o único, até agora, que afirmou o que deve um presidente fazer e como o pode fazer. De forma inábel, é certo, porque o homem é tudo menos um comunicador mas, pelo menos, o seu discurso desarticulado e atrapalhado tem conteúdo.

Não admira que uma "sondagem à boca das urnas" (ou à boca do debate) desse um empate técnico sobre quem venceu o debate: Soares 25%; Cavaco 23%; Não Viu o Debate 51%. Um debate é uma discussão de ideias, de projectos, e até agora temos tido um candidato a apresentar ideias - boas ou más, exequíveis ou não, não interessa - e os restantes quatro a dizer porque é que o primeiro é mau. Não chega.

December 20, 2005

Porto


O Porto tem destas coisas. O melhor e o pior. Pena é terem gerado o Pinto da Costa.

Obrigado ao Cidade Surpreendente pela foto: vale a pena dar um saltito ao blog para ver o resto da Lello.

December 16, 2005

rembrandt van rijn

apelo

Ontem, no "Quadratura do Círculo", gostei particularmente do apelo de Jorge Coelho à desistência dos "outros" candidatos de esquerda em favor "daquele que está a descolar". Tendo em conta que as sondagens são, por enquanto, um pouco contraditórias relativamente às prestações de Soares e Alegre, não terá sido uma afirmação um pouco prematura? Ou estará Coelho a mudar de camisola?

December 15, 2005

outdoor


Ia eu a sair da A5, guiando como de costume com a cabeça no ar, quando se me depara um outdoor semelhante à foto ao lado. Ia batendo em três carros simultaneamente. O "MP3" quer dizer, pelos vistos, "Mário Presidente 3", mas a única coisa que me veio à cabeça foi como meter o anafado candidato dentro de um iPod.
Não acho que valha a pena fazer mais comentários. É triste demais.

debates

Vi ontem o debate Soares / Alegre na TV. Cheirava a formol.

December 05, 2005

coisas...

Porque é que quando durmo pouco na noite anterior, passo o santo dia a fazer xixi? Será que a próstata incha de sono?

November 28, 2005

nota ao post anterior

No post anterior atrevi-me a falar da questão do aeroporto - não da Ota em si, mas de um putativo novo aeroporto. Creio que deixei claro porque acho perfeitamente asinino manter a Portela. Aquilo que não ficou claro foi a minha opinião quanto à localização, e acho que o devo fazer.
Um aeroporto a Sul do Tejo (a Sul mas apenas a 40/50 km) pode dinamizar toda a região industrial de Setúbal, Sines, etc., bem como facilitar a circulação turística do Alentejo e por aí fora.

Mas como é lógico, há uma condição sine qua non para esta escolha geográfica: há que requalificar, modernizar, aumentar e, acima de tudo, estabelecer uma nova estratégia para o aeroporto das Pedras Rubras. Nenhum novo aeroporto, a meu ver, deve retirar importância ao aeroporto do Porto (digam este bocado muito depressa), tendo em contas as aspirações (válidas e realistas) desta cidade relativamente à sua importância dentro do norte da Península Ibérica. Ao colocarmos um novo aeroporto a Norte de Lisboa estamos inevitavelmente a subalternizar o aeroporto do Porto e, indirectamente, a própria cidade. Se esta aspira a liderar economicamente a região norte da Península estamos a retirar-lhe uma mais-valia importante.

Daí achar que o aeroporto de Lisboa deve ficar a Sul ou a Este da cidade.

PS: eu sei que o aeroporto do Porto se chama Aeroporto Francisco Sá Carneiro, mas embirro um bocado com esta mania de rebaptizar locais que já têm nome enraizados, como Aeroporto das Pedras Rubras, Praça do Areeiro ou Ponte Salazar. Um dia falo disto.

November 27, 2005

voos

Não percebo nada de aviões. Ou de avionetas. Helicópteros então são um mistério absoluto, classificados na minha turtuosa mentezinha ao lado de mitos como dragões e arroz solto e seco. Mas o senso comum diz-me que haver um aeroporto no meio de uma cidade de quase um milhão de habitantes é um convite (sem RSVP) ao desastre do outro mundo. Assim, não percebo pelo menos metade desta polémica em torno da Ota. É mais ou menos óbvio que, qualquer que seja a sua capacidade, a Portela não pode existir enquanto aeroporto, aeródromo ou pista de aeromodelismo. Por muito que se diga que a sua desactivação vai afectar a cidade, o turismo e os pastéis de belém, basta considerar que as consequências de qualquer acidente vão afectar Lisboa e os seus habitantes muito mais do que a dita ida do aeroporto para Monção ou coisa que o valha.
Aquilo que se pode, e deve, discutir, é se a Ota é a melhor localização para um aeroporto internacional. Pormenores técnicos à parte, os quais nem tento perceber, parece-me que seria melhor ter o aeroporto a Sul do Tejo, e não a Norte. Por questões sociológicas e de desenvolvimento regional. A Norte existe Pedras Rubras, ainda válido como aeroporto. A Sul não há nada. Também não há, é certo, infraestruturas viárias credíveis que permitam que o fluxo de tráfego gerado por um aeroporto internacional ocorra ordenadamente, por exemplo (basta ver as filas matinais de acesso à ponte sobre o Tejo). Mas talvez valesse a pena considerar estes factores - o desenvolvimento global do país - principalmente porque estamos a falar de um investimento milionário.

November 19, 2005

profissionalismo

Um estudo da Markteste, relativo à cobertura jornalística dos vários candidatos na TV, revela os seguintes dados:

1. Jerónimo de Sousa: 227 notícias, 8:12:38 h:m:s
2. Francisco Louçã: 189 notícias, 6:52:04 h:m:s
3. Mário Soares: 156 notícias, 6:19:51 h:m:s
4. Manuel Alegre: 104 notícias, 5:00:35 h:m:s
5. Cavaco Silva: 85 notícias 3:44:29 h:m:s

Assim se percebe facilmente o grau de imparcialidade, e por consequência de profissionalismo, dos jornalistas nacionais. Além de não compreenderem que é mais importante (e nobre) informar do que opinar, nem sequer conseguem colocar as suas convicções no saco quando o fazem.

Maus. Somos realmente muito maus naquilo tudo, ou quase, que fazemos.

November 17, 2005

competitividade versus anormalidade

Segundo o Diário de Notícias (não me apetece pôr o link), a nossa Ministra da Educação teve uma ideia brilhante. Passo a citar:

"Os conselhos pedagógicos das escolas terão o poder de fazer passar de ano, numa 'avaliação extraordinária', estudantes repetentes que se encontrem em vias de voltar a reprovar. A medida (...) vem definir um conjunto de estratégias para combater o insucesso e o abandono escolar no ensino básico, que leva a que, anualmente, entre 15 e 17 mil alunos deixem a escola sem terminarem o 9.º ano."

Como disse, uma brilhante ideia. Uma ideia polidinha, bonitinha, feita à medida da limpeza das estatísticas que demonstram o país de broncos que somos. Prosseguindo este brilhante raciocínio, talvez fosse melhor passar todos os alunos administrativamente até ao 12º ano ou, melhor ainda, assim que uma criança nasce o Registo Civil oferece a Cédula Pessoal e o Diploma dos Liceus, ficando Portugal visto como o país com a melhor instrução do mundo inteiro (e arredores).
O problema é que Portugal padece, na realidade, de uma falta de Educação confrangedora. Falta de Educação essa que nos coloca atrás do Burkina Faso em termos de competitividade e que faz com que sejamos preteridos sempre que uma multinacional se deseja estabelecer nas redondezas, fazendo também com que as empresas portuguesas tenham uma capacidade de crescimento e internacionalização idênticas às empresas do Butão.
Esta falta de Educação, além daquilo que implica em termos empresariais, tem consequências civilizacionais bem mais graves, fazendo com que poucos cidadãos compreendam um texto escrito - seja notícia ou programa eleitoral - ou um simples discurso de político-de-vão-de-escada, implicando uma democracia coxa e pouco participativa.

Isto simplificando o problema.

Aquilo que a Sra. D. Ministra devia de fazer é exactamente o inverso: subir o grau de exigência do ensino, formar professores dignos desse nome, criar mecanismos de assistência a alunos com dificuldades de aprendizagem, reformar os estabelecimentos de ensino a nível de equipamentos, avaliar com rigor professores e escolas... mas tudo isto é difícil, leva tempo a concretizar e, muito honestamente, as estatísticas iriam ficar na mesma durante mais algum tempo.

Algo me diz que a ministra também passou administrativamente no curso...

November 11, 2005

involuçao

Segundo as notícias, os manuais escolares do estado do Kansas vão poder por em causa a teoria da evolução.

É daquelas notícias que, em tempos normais, me fariam rir a bandeiras despregadas e gozar com os americanos durante pelo menos três semanas. Em tempos normais.
Nestes tempos a notícia alarma-me um bocadito. A teoria da evolução, que Darwin postulou em mil oitocentos e troca o passo, em resultado das suas observações em Inglaterra e durantes as viagens do Beagle, tem vindo a ser (a)provada desde essa altura. Hoje em dia, graças aos avanços em matéria de genética, a teoria não só está mais que provada como há um novo campo de investigação que a demonstra inequivocamente. Como é então possível que seja posta em causa na nação que mais investe em investigação científica, que mais prémios Nobel ganha, que tem das universidades mais reputadas do mundo inteiro, que tem o mais generalizado acesso à internet e à informação em geral?
Que os Estados Unidos são um país de contrastes sociais, é óbvio. Mas são também uma referência para todo o mundo - e principalmente para a velha Europa, que os tenta emular em tudo. Este tipo de atitudes pode vir a ter ecos deste lado do mundo. Se a recrudescência religiosa começa a surgir lá, pode-se alastrar por aqui. E todos conhecemos aquilo que a Europa fez em nome da religião.