Um energúmeno qualquer do CDS quer que o partido seja sexy, o PM quer mandar vir espanholas, a presidente da câmara de Felgueiras ri-se impunemente de uma Justiça ineficaz e corrupta, o presidente da câmara de Gondomar insulta alarvemente todos os seus adversários, o presidente da região autónoma da Madeira insulta, também de forma alarve e regularmente, o Governo e 99% dos portugueses, ao que se sabe a maioria dos autarcas deste país são absurdamente corruptos, tal como o são dirigentes desportivos, funcionários públicos, construtores civis, árbitros, juízes...
Não me surpreende nada o nível baixinho, rasteirinho, do debate na Assembleia, seja ele qual for. O que me surpreende é haver quem se surpreenda com isto. Porque "isto" é Portugal. Não no seu melhor mas no seu estado normal. O comentário "à espanhola", digno de Palma Cavalão e do Eusébiozinho como muitos notaram, significa simplesmente que não evoluímos nada desde o final do século XIX, quando Eça apontava os mesmos problemas na sociedade portuguesa que todos hoje apontam. E nesse século escrevia-se que esses mesmos problemas já vinham do tempo de D. João VI e, provavelmente, assim sucessivamente.
À época, atribuía-se este estado de coisas a uma monarquia decadente; há 40 anos atrás, a uma ditadura serôdia; hoje, a uma classe política corrupta. Mas se olharmos para o problema de frente, sem devaneios, vemos que o problema é simplesmente nosso. De todos. O problema está na nossa indiferença, seja profissional, seja na participação cívica, na decisão política, seja no âmbito familiar, seja lá onde for. Os políticos, sejam os monarcas reinantes de antanho (gira, esta), sejam os democratas de hoje, não são mais que um reflexo da generalidade dos portugueses, e estes são, infelizmente, um povo tacanho, de mente fechada, conservador, ignorante na sua grande maioria, com horror ao seu passado e um medo absoluto do futuro. Preferimos escondermo-nos atrás do soporífero do futebol e da novela acéfala a encarar os nossos problemas diários e a encontrar formas de os resolver. Extrapolando esta atitude do indivíduo para a comunidade, é fácil observá-la na forma como as empresas são geridas ou na forma como o Estado "gere" o país.
A solução? É mais do que óbvia, mas isso implica ignorar o Benfica x Barcelona, levantar o cu do sofá e fazer alguma coisa. Mas isso dá uma trabalhêra...
March 30, 2006
March 29, 2006
conversas
O cenário: um café "bemzoco" do Linhó.
A hora: 8:45 da manhã, depois de deixar os miúdos na escola.
Os personagens: três "tias", uma em fato-de-treino-porque-vou-já-a-seguir-para-o-Holmes, as outras duas em traje de tia (jean de etiqueta, camisa de etiqueta, camisola de etiqueta e sapato de etiqueta - desculpem mas não espreitei para ver se a cueca tinha etiqueta).
O diálogo:
Tia 1 (traje-de-Holmes): não sei o que hei-de fazer, é uma canseira...
Tia 2 (etiqueta): eu sei filha, eu sinto o mesmo...
Tia 3 (etiqueta): hmmm, hmmm (com as beiças enfiadas na meia de leite)...
Tia 1: é que parece que não faço mais nada... venho pô-los a esta hora estúpida, depois estou cá outra vez às quatro...
Tia 2: ...
Tia 3: parece que não temos vida própria, não é?
Tia 1: e o que se anda de automóvel... para lá... para cá... ainda é uma despesa!
(nota: a Tia mora na Beloura, a 500m da escola, fazendo o trajecto de Volvo XC70 diariamente)
Tia 2: e ir às festas? parece que há uma criança a fazer anos quase todo o santo fim-de-semana...
Tia 1: é verdade! nem ao fim-de-semana podemos fazer o que queremos...
Tia 2: arranje um homem...
Tia 3: um homem?!
Tia 2: um homem... um chofér (até devem escrever o cargo como o pronunciam)
Tia 1: só se fosse a tempo inteiro... para isso tinha de ser um casal.
Tia 3: e então?
Tia 1: se calhar... com a despesa de gasolina e com o que deixo de fazer, se calhar até compensa...
Tia 2: além disso, dava para fazerem mais umas coisas na casa. Sei lá... jardinagem ou coisa que o valha...
(...)
A partir daqui desliguei. A estupidez e possidonite eram de tal ordem que o café quase não se aguentou no estômago. Conheço grande parte das mães e dos pais que têm os filhos na dita escola e, tal como eu, tanto pai como mãe trabalham, correm de um lado para o outro a transportar os filhos durante a semana e ao fim de semana, ajudam-nos com os TPC, educam-nos... ou seja, têm a vida que escolheram no momento em que decidiram formar uma família. E, apesar de cansados, por vezes frustrados e outras vezes felizes da vida, andam em frente e não se queixam.
Ouvir aquelas três galinhas logo de manhã, por muito divertido que seja, dá vontade de fugir para outro planeta.
A hora: 8:45 da manhã, depois de deixar os miúdos na escola.
Os personagens: três "tias", uma em fato-de-treino-porque-vou-já-a-seguir-para-o-Holmes, as outras duas em traje de tia (jean de etiqueta, camisa de etiqueta, camisola de etiqueta e sapato de etiqueta - desculpem mas não espreitei para ver se a cueca tinha etiqueta).
O diálogo:
Tia 1 (traje-de-Holmes): não sei o que hei-de fazer, é uma canseira...
Tia 2 (etiqueta): eu sei filha, eu sinto o mesmo...
Tia 3 (etiqueta): hmmm, hmmm (com as beiças enfiadas na meia de leite)...
Tia 1: é que parece que não faço mais nada... venho pô-los a esta hora estúpida, depois estou cá outra vez às quatro...
Tia 2: ...
Tia 3: parece que não temos vida própria, não é?
Tia 1: e o que se anda de automóvel... para lá... para cá... ainda é uma despesa!
(nota: a Tia mora na Beloura, a 500m da escola, fazendo o trajecto de Volvo XC70 diariamente)
Tia 2: e ir às festas? parece que há uma criança a fazer anos quase todo o santo fim-de-semana...
Tia 1: é verdade! nem ao fim-de-semana podemos fazer o que queremos...
Tia 2: arranje um homem...
Tia 3: um homem?!
Tia 2: um homem... um chofér (até devem escrever o cargo como o pronunciam)
Tia 1: só se fosse a tempo inteiro... para isso tinha de ser um casal.
Tia 3: e então?
Tia 1: se calhar... com a despesa de gasolina e com o que deixo de fazer, se calhar até compensa...
Tia 2: além disso, dava para fazerem mais umas coisas na casa. Sei lá... jardinagem ou coisa que o valha...
(...)
A partir daqui desliguei. A estupidez e possidonite eram de tal ordem que o café quase não se aguentou no estômago. Conheço grande parte das mães e dos pais que têm os filhos na dita escola e, tal como eu, tanto pai como mãe trabalham, correm de um lado para o outro a transportar os filhos durante a semana e ao fim de semana, ajudam-nos com os TPC, educam-nos... ou seja, têm a vida que escolheram no momento em que decidiram formar uma família. E, apesar de cansados, por vezes frustrados e outras vezes felizes da vida, andam em frente e não se queixam.
Ouvir aquelas três galinhas logo de manhã, por muito divertido que seja, dá vontade de fugir para outro planeta.
March 28, 2006
circo
Uma reunião adiada, dois cafés fechados, uma outra empresa fechada antes das 17:00h.
E assim me apercebi que hoje o Benfica jogava com uns espanhóis quaisquer. Apercebi-me também porque temos o país que temos, ou porque está no estado que está.
Panem et circenses... não vale a pena dizer mais nada.
E assim me apercebi que hoje o Benfica jogava com uns espanhóis quaisquer. Apercebi-me também porque temos o país que temos, ou porque está no estado que está.
Panem et circenses... não vale a pena dizer mais nada.
March 22, 2006
primavera
Ontem foi o primeiro dia de Primavera. O meu filho fez onze anos. Comparando os dois acontecimentos, o primeiro não tem a menor importância.
Parabéns, Gui!
Parabéns, Gui!
choque civilizacional
(ainda relacionado com o post anterior, o choque tecnológico, o acesso à web e essas tretas todas)
Por muito que o primeiro-ministro discurse, por muito que Mariano Gago se torça, ainda não percebi para que serve o Choque Tecnológico e a quem se dirige. Aos Particulares? Às Empresas? A todos? Aos ingleses (para verem)?
Um Programa (com Pê Grande) deste tipo dirigido às empresas é um disparate: as empresas quando têm de investir em tecnologia fazem-no quando podem, quando devem e quando lhes apetece. O governo só tem de garantir uma carga fiscal (IRC, IVA, Taxa Social Única) baixa, que permita às empresas criarem reservas de capital que possam ser reinvestidas - seja em tecnologia, em recursos humanos ou em qualquer área necessária num dado momento da vida de empresa. Ponto. Não tem de fazer absolutamente mais nada. Criar incentivos (fiscais ou outros) para este tipo de investimento é em grande medida, como se provou no passado, premiar a incompetência e o oportunismo. Se um qualquer empresário quiser investir os ganhos da sua empresa em Ferraris ou disparate do género, fá-lo-à com ou sem incentivos e levará a empresa à falência de qualquer modo. O inverso é igualmente verdade.
O mesmo Programa (também com Pê grande) dirigido aos particulares menos sentido faz. O tuga médio fará com o PC novinho em folha e acesso à net em banda larga o mesmo que faz com o PC de 1984 com um modem a 56k: ignora o Word, o Excel e o Powerpoint e navega direitinho ao site pornográfico mais próximo. Não deixa o miúdo lá de casa procurar documentação de estudo na net, não vá o filho sair ao pai e navegar na mesma direcção, nem procura informar-se nem educar-se.
Porque o problema do tuga médio não é a dificuldade de acesso à tecnologia ou à informação (como se vê pela profusão de telemóveis), mas sim um problema de Educação. Ao Estado cabe, de novo, ter uma política fiscal eficaz e moderada (reduzindo o IVA, efectivando a colecta fiscal, etc.) e, através dos mecanismos reguladores da concorrência e do mercado, obrigar os operadores a praticar preços de acesso à internet razoáveis e acessíveis à realidade económica nacional. Por outro lado deve acabar com a total ineficácia do nosso sistema educativo, para que o tuga, esse estranho mamífero, navegue em direcções mais proveitosas.
Não vejo, sinceramente, onde é que está a falha no meu raciocínio. Por isso acho que o Choque Tecnológico não passa de mais uma das muitas medidas para (preencher com nacionalidade preferida) ver.
Por muito que o primeiro-ministro discurse, por muito que Mariano Gago se torça, ainda não percebi para que serve o Choque Tecnológico e a quem se dirige. Aos Particulares? Às Empresas? A todos? Aos ingleses (para verem)?
Um Programa (com Pê Grande) deste tipo dirigido às empresas é um disparate: as empresas quando têm de investir em tecnologia fazem-no quando podem, quando devem e quando lhes apetece. O governo só tem de garantir uma carga fiscal (IRC, IVA, Taxa Social Única) baixa, que permita às empresas criarem reservas de capital que possam ser reinvestidas - seja em tecnologia, em recursos humanos ou em qualquer área necessária num dado momento da vida de empresa. Ponto. Não tem de fazer absolutamente mais nada. Criar incentivos (fiscais ou outros) para este tipo de investimento é em grande medida, como se provou no passado, premiar a incompetência e o oportunismo. Se um qualquer empresário quiser investir os ganhos da sua empresa em Ferraris ou disparate do género, fá-lo-à com ou sem incentivos e levará a empresa à falência de qualquer modo. O inverso é igualmente verdade.
O mesmo Programa (também com Pê grande) dirigido aos particulares menos sentido faz. O tuga médio fará com o PC novinho em folha e acesso à net em banda larga o mesmo que faz com o PC de 1984 com um modem a 56k: ignora o Word, o Excel e o Powerpoint e navega direitinho ao site pornográfico mais próximo. Não deixa o miúdo lá de casa procurar documentação de estudo na net, não vá o filho sair ao pai e navegar na mesma direcção, nem procura informar-se nem educar-se.
Porque o problema do tuga médio não é a dificuldade de acesso à tecnologia ou à informação (como se vê pela profusão de telemóveis), mas sim um problema de Educação. Ao Estado cabe, de novo, ter uma política fiscal eficaz e moderada (reduzindo o IVA, efectivando a colecta fiscal, etc.) e, através dos mecanismos reguladores da concorrência e do mercado, obrigar os operadores a praticar preços de acesso à internet razoáveis e acessíveis à realidade económica nacional. Por outro lado deve acabar com a total ineficácia do nosso sistema educativo, para que o tuga, esse estranho mamífero, navegue em direcções mais proveitosas.
Não vejo, sinceramente, onde é que está a falha no meu raciocínio. Por isso acho que o Choque Tecnológico não passa de mais uma das muitas medidas para (preencher com nacionalidade preferida) ver.
modernices
O governo da república das bananas decidiu pôr em prática o famoso Choque Tecnológico e, de um dia para o outro, decidiu que o Imposto de Circulação Automóvel - vulgo o "selo do carro" ou "mais um tareco para pôr no vidro tenho de pensar em despendurar o crucifixo do retrovisor" - passa a ser adquirido única e exclusivamente através da net.
Ena!
Espero que a decisão não tenha sido do ministro das finanças, porque revela um problema grave em resolver a aritmética mais simples: se 80% dos portugueses têm carro, e se só 35% dos ditos tugas têm acesso à net, há 45% de desgraçados que vão pagar multas em barda.
Ena!
Espero que a decisão não tenha sido do ministro das finanças, porque revela um problema grave em resolver a aritmética mais simples: se 80% dos portugueses têm carro, e se só 35% dos ditos tugas têm acesso à net, há 45% de desgraçados que vão pagar multas em barda.
March 20, 2006
silogismo
Morreu Slobodan Milosevic. Faz três anos que se deu a invasão do Iraque. Hugo Chavez, presidente da Venezuela, mimoseou Bush com uns epítetos divertidos: bêbedo, cobarde, assassino, genocida, etc.
Estes factos parecem não ter relação nenhuma, a não ser que se tenha uma mentezinha turtuosa como a minha. Milosevic estava sentadinho no banco dos réus por genocídio e outros crimes menores, entre os quais o roubo de chupa-chupas às crianças da Bósnia. Na verdade, estava em tribunal por ter iniciado uma guerra e a ter perdido, pura e simplesmente. Se formos olhar com atenção, todos os lados dessa guerra cometeram atrocidades do mesmo tipo. Talvez em escalas diferentes, mas idênticas na forma.
A guerra é isso mesmo: um conjunto mais ou menos regulamentado de atrocidades. Morre-se à patada de um lado e do outro; as populações de ambos os lados são torturadas, violadas e dizimadas. A consequência da guerra é sempre a mesma e não há volta a dar a isso. A Europa "civilizada", que há 67 anos gerou o maior morticínio da História, parece ter-se esquecido deste pormenor.
Não estou, obviamente, a tentar justificar ou menorizar os crimes de Milosevic. Pelo contrário: a Sérvia tentou, através de uma guerra injustificada, travar o desmembramento da sua federação, atacando todos os povos que quiseram sair e obter a independência.
Por outro lado, olhando pelo mesmo prisma, a guerra desencadeada pelos EUA contra o Iraque é igualmente injustificada e criminosa. Todos os pressupostos enunciados por Bush y sus hermanos para justificar a invasão do Iraque se provaram ser uma mentira pegada. Nem armas de destruição maciça, nem ameaça regional, nem o raio que os parta. Nada. Nicles. Zerinho. O governo dos Estados Unidos invadiram o Iraque porque sim. Porque podiam. Porque havia lá petróleo (pensavam) fácil. Porque o papá Bush tinha falhado da primeira vez.
Ainda olhando pelo mesmo prisma, Bush é tão criminoso como Milosevic e só não está sentadinho no mesmo banco onde este esteve apenas porque ganhou. E porque a Europa é hipócrita, acomodada e fraca.
Chavez pode ser um demagogo perfeito, e o seu discurso é para consumo interno mas... pode ter uma pontinha de razão.
Estes factos parecem não ter relação nenhuma, a não ser que se tenha uma mentezinha turtuosa como a minha. Milosevic estava sentadinho no banco dos réus por genocídio e outros crimes menores, entre os quais o roubo de chupa-chupas às crianças da Bósnia. Na verdade, estava em tribunal por ter iniciado uma guerra e a ter perdido, pura e simplesmente. Se formos olhar com atenção, todos os lados dessa guerra cometeram atrocidades do mesmo tipo. Talvez em escalas diferentes, mas idênticas na forma.
A guerra é isso mesmo: um conjunto mais ou menos regulamentado de atrocidades. Morre-se à patada de um lado e do outro; as populações de ambos os lados são torturadas, violadas e dizimadas. A consequência da guerra é sempre a mesma e não há volta a dar a isso. A Europa "civilizada", que há 67 anos gerou o maior morticínio da História, parece ter-se esquecido deste pormenor.
Não estou, obviamente, a tentar justificar ou menorizar os crimes de Milosevic. Pelo contrário: a Sérvia tentou, através de uma guerra injustificada, travar o desmembramento da sua federação, atacando todos os povos que quiseram sair e obter a independência.
Por outro lado, olhando pelo mesmo prisma, a guerra desencadeada pelos EUA contra o Iraque é igualmente injustificada e criminosa. Todos os pressupostos enunciados por Bush y sus hermanos para justificar a invasão do Iraque se provaram ser uma mentira pegada. Nem armas de destruição maciça, nem ameaça regional, nem o raio que os parta. Nada. Nicles. Zerinho. O governo dos Estados Unidos invadiram o Iraque porque sim. Porque podiam. Porque havia lá petróleo (pensavam) fácil. Porque o papá Bush tinha falhado da primeira vez.
Ainda olhando pelo mesmo prisma, Bush é tão criminoso como Milosevic e só não está sentadinho no mesmo banco onde este esteve apenas porque ganhou. E porque a Europa é hipócrita, acomodada e fraca.
Chavez pode ser um demagogo perfeito, e o seu discurso é para consumo interno mas... pode ter uma pontinha de razão.
March 13, 2006
ok... ok... eu comento o novo presidente

Ou, mais exactamente, os comentários acerca do novo presidente.
Apesar de ter ouvido aqui e ali alguns comentários interessantes, outros inteligentes (e alguns que eram as duas coisas), a maior parte dos comentários que tenho ouvido-lido-visto pura e simplesmente falam da condição humilde do PR, ou então da forma como el presidente y su muchacha se vestem.
Mas qu'é que raio é que isso interessa? Aparte as cerimónias oficiais com dignitários estrangeiros, que podem dar, lá fora, uma imagem antiquada do país, a forma como o casal presidencial se veste é irrelevante. Desde que não saiam nus do Palácio de Belém - o que poderia originar uma guerra civil ou um sucídio colectivo do povo português - não interessa minimamente se vestem Tenente, Buchinho ou Loja das Meias. Vai dar ao mesmo, porque aquilo que realmente interessa são as acções e o discurso que sairem da presidência, que podem dar estabilidade ou gerar confusão na sociedade - o que aconteceu com Sampaio e Mª Ritta, que vestiam moderadamente bem.
Para além disso, num país que tem como jet-set uma cambada de imbecis que vestem como se fossem bolos de noiva, quem é que tem a menor moral para apontar o dedo? É preciso ter pachorra.
March 10, 2006
W. H. Auden, Funeral Blues
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crèpe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever; I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood,
For nothing now can ever come to any good.
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crèpe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever; I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood,
For nothing now can ever come to any good.
March 09, 2006
ah não!

O Governo teve uma daquelas ideias que não cabem na cabeça de ninguém. Segundo a sua proposta, será obrigatório que todos os lugares eleitos por lista - parlamento, autarquias, etc. - tenham pelo menos 1/3 (um terço, 33,3333333...%) de mulheres. Por lei. Obrigatoriamente. Trás!
Gira esta.
Obviamente que deveríamos de ter mais mulheres a participar na governação do país. Quanto mais não seja porque os homens geraram a cagada em que nos encontramos. Logicamente, havendo mais mulheres que homens na sociedade em geral, estas deveriam ter uma representação superior à dos homens. Tendo em conta que as mulheres hoje em dia representam a maioria dos estudantes universitários, deveriam ascender mais facilmente ao poder. Mas...
Mas a realidade é que a nossa sociedade ainda é tendencialmente machista. A maioria dos homens ainda acha - ainda que secretamente - que o lugar da fêmea é na cozinha, com os filhos. Soluções por decreto como estas só servem para mascarar a realidade. É uma solução fácil, que não muda nada mas fica bem no papel. Difícil, mas eficaz, é pôr em prática as soluções que resolveriam o problema na sua raiz: criar infantários acessíveis a todas as famílias, criar um sistema escolar que não abandone as crianças durante meio dia, obrigar as empresas à equidade salarial entre sexos, etc.
Medidas como esta, por decreto, não só não resolvem nada como abrem caminho a outros disparates do género: se 5% da população portuguesa é negra, 5% dos deputados devem ser negros; se 15% da população é homossexual, 15% do Governo deve vestir cor-de-rosa; se 8% da população é muçulmana, 8% dos presidentes de câmara devem pôr-se de cu pró ar cinco vezes ao dia, se 80% da população não gosta de trabalhar, 80% dos governantes deve... ah não! esta paridade já existe.
A paridade social só surgirá, de facto, quando a sociedade portuguesa evoluir no seu todo, à custa de um melhoramento social e educacional, não como resultado de decretos avulsos.
March 07, 2006
posta restante
Ultimamente custa-me postar. A política anda morna, não vi a entrega dos Óscares e não gosto de futebol. Há, portanto, pouco folclore a comentar.
Não sou como o José Pacheco Pereira ou qualquer outro cronista encartado, que conseguem comentar até A Partida dos Chatos para a Índia. A maior parte daquilo que se passa nesta abençoada terrinha já nem comentário merece: quase que apetece dizer que mais valia meter metade da população no Campo Pequeno e chaciná-los a todos. Mas se dissesse isso tinha de pagar direitos ao Otelo Saraiva de Carvalho.
Para ser franco, falta-me a pachorra; ou fui invadido pelo desânimo. É apenas uma fase, eu sei: qualquer acordo fresco e fofo e presto verdadeira atenção àquilo que me rodeia, e vejo imediatamente meia-dúzia de coisas que me merecem um comentário ou uma piada. Até lá, arrasto-me.
Não sou como o José Pacheco Pereira ou qualquer outro cronista encartado, que conseguem comentar até A Partida dos Chatos para a Índia. A maior parte daquilo que se passa nesta abençoada terrinha já nem comentário merece: quase que apetece dizer que mais valia meter metade da população no Campo Pequeno e chaciná-los a todos. Mas se dissesse isso tinha de pagar direitos ao Otelo Saraiva de Carvalho.
Para ser franco, falta-me a pachorra; ou fui invadido pelo desânimo. É apenas uma fase, eu sei: qualquer acordo fresco e fofo e presto verdadeira atenção àquilo que me rodeia, e vejo imediatamente meia-dúzia de coisas que me merecem um comentário ou uma piada. Até lá, arrasto-me.
February 28, 2006
uma primeira vez para tudo...
Bom. Pela primeira vez nestas minhas andanças na blogolândia, vou dirigir um post a alguém. Uma "alguém" que me desafiou a aumentar a lista de estranhos hábitos que postei há pouco tempo. Começaram por ser dez, mas como como reclamei a coisa já vai em vinte. É melhor despachar-me senão a Cruella vai pôr-me a escrever até ao Ano Novo.
Podia levar isto no gozo e pura e simplesmente debitar duas dezenas dos disparates que me acompanham no dia-a-dia, fruto do hábito de quatro décadas de vida. Ou então, devido ao respeito e consideração que ganhei pela desafiadora, levar isto um bocadinho mais a sério. Para isso, há que afirmar o óbvio: todos os estranhos hábitos que tenho, seja chegar tarde a todo o lado, ou só sair de casa de banhinho tomado, advêm pura e simplesmente das minhas piores falhas de carácter. Listar estas últimas é mais fácil que listar vinte hábitos mais ou menos estranhos, porque são bastante menos. Quase todas as minhas manias que irritam os outros provêm de dois simples defeitos graves: egoísmo e imaturidade.
O egoísmo faz-me ignorar - ou não dar importância - à maior parte das pessoas que me rodeia. Daí nunca me lembrar do nome de ninguém, ou não querer saber se estão à minha espera, ou seja o que for. Inconscientemente, tudo aquilo que não se passa no Planeta João não me interessa minimamente. É a mesma razão - ou uma das razões - que faz com que não saia da agência, seja a que horas for, sem dar uma voltita na web ou antes de jogar um bocadinho no computador.
A imaturidade tem efeitos semelhantes, levando-me a pensar sempre que o despertador toca "... o mundo não vai acabar antes das onze de certeza... só mais dez minutos...", ou a mandar tudo às urtigas até às quatro da tarde e ir passear para a praia (no Inverno). Também tem um lado divertido, claro, que me permite deitar a língua de fora aos taxistas no Marquês de Pombal depois de uma particular alarvidade ao volante. Ou a buzinar e a dizer adeus às patrulhas da GNR-BT pacatamente parqueadas na berma da estrada.
A única circunstância atenuante que posso invocar é que conheço bem os meus defeitos e tento, sempre que me apercebo disso, corrigir as minhas atitudes. Claro que falho redondamente a maioria das vezes, mas ando a tratar-me. É pena as ampolas já não fazerem efeito.
Peço-te desculpa, Sílvia, porque o teu desafio não gerou um post divertido e levezinho. Mas, como tenho intenção de voltar a trabalhar contigo, talvez venhas a presenciar muitas das minhas manias. Com sorte, as mais inofensivas.
Podia levar isto no gozo e pura e simplesmente debitar duas dezenas dos disparates que me acompanham no dia-a-dia, fruto do hábito de quatro décadas de vida. Ou então, devido ao respeito e consideração que ganhei pela desafiadora, levar isto um bocadinho mais a sério. Para isso, há que afirmar o óbvio: todos os estranhos hábitos que tenho, seja chegar tarde a todo o lado, ou só sair de casa de banhinho tomado, advêm pura e simplesmente das minhas piores falhas de carácter. Listar estas últimas é mais fácil que listar vinte hábitos mais ou menos estranhos, porque são bastante menos. Quase todas as minhas manias que irritam os outros provêm de dois simples defeitos graves: egoísmo e imaturidade.
O egoísmo faz-me ignorar - ou não dar importância - à maior parte das pessoas que me rodeia. Daí nunca me lembrar do nome de ninguém, ou não querer saber se estão à minha espera, ou seja o que for. Inconscientemente, tudo aquilo que não se passa no Planeta João não me interessa minimamente. É a mesma razão - ou uma das razões - que faz com que não saia da agência, seja a que horas for, sem dar uma voltita na web ou antes de jogar um bocadinho no computador.
A imaturidade tem efeitos semelhantes, levando-me a pensar sempre que o despertador toca "... o mundo não vai acabar antes das onze de certeza... só mais dez minutos...", ou a mandar tudo às urtigas até às quatro da tarde e ir passear para a praia (no Inverno). Também tem um lado divertido, claro, que me permite deitar a língua de fora aos taxistas no Marquês de Pombal depois de uma particular alarvidade ao volante. Ou a buzinar e a dizer adeus às patrulhas da GNR-BT pacatamente parqueadas na berma da estrada.
A única circunstância atenuante que posso invocar é que conheço bem os meus defeitos e tento, sempre que me apercebo disso, corrigir as minhas atitudes. Claro que falho redondamente a maioria das vezes, mas ando a tratar-me. É pena as ampolas já não fazerem efeito.
Peço-te desculpa, Sílvia, porque o teu desafio não gerou um post divertido e levezinho. Mas, como tenho intenção de voltar a trabalhar contigo, talvez venhas a presenciar muitas das minhas manias. Com sorte, as mais inofensivas.
February 24, 2006
abençoada variz
Segundo as notícias de hoje, Alberto João Jardim não vai poder participar no desfile de Carnaval da Madeira, por causa das varizes. Haverá uma abençoada variz que o impeça de presidir ao Governo Regional?
February 23, 2006
tempus fugit
Pois. Isto de estar cheio de trabalho reflecte-se na "postagem". Não tenho tempo nem para me coçar, nem para postar.
Raio de vida.
Ainda por cima, na próxima posta tenho de responder a um desafio que me fizeram há quatro ou cinco posts atrás: revelar os meus 10 maiores hábitos estranhos (ai...).
Raio de vida.
Ainda por cima, na próxima posta tenho de responder a um desafio que me fizeram há quatro ou cinco posts atrás: revelar os meus 10 maiores hábitos estranhos (ai...).
February 20, 2006
February 17, 2006
intelectuais

Vinha hoje no pópó para o emprego - atrasado como nunca - a ouvir um CD que me fez lembrar uma crónica do António Mega Ferreira de há umas semanas atrás. A musiquita em questão era a 40ª sinfonia de Mozart (KV 550 em Sol Menor, só p'ra dar um ar intelectual) e fez-me lembrar o sôr Mega porque a crónica em questão referia-se aos 250 anos de aniversário do compositor. Através de uma série de argumentos aparentemente inabaláveis, o Grande Mega demonstra como Mozart se tornou um produto kitsch. Popularucho.
Sinceramente não me recordo do artigo na íntegra, mas entre a evocação de sinfonias menos conhecidas do grande público, o assobiar popular da abertura da Júpiter (41ª), as caixas de bonbons e o "horroroso" Amadeus de Milos Forman, ficámos a conhecer a espessura cultural do irmão Mega.
Se há coisa que me irrita são os nossos pseudo-intelectuais e sua propensão para pensar que a "Cultura" é propriedade sua, de compreensão inatingível pelo vulgar cidadão. Para isso acham importante saber onde nasceu o compositor/autor/pintor/senhora-da-limpeza, saber quantas sinfonias compôs ou qual a direcção predilecta da pincelada do artista, ou qual o seu número de sapato ou de cueca.
Da última vez que pensei no assunto, há mais ou menos 20 anos, cheguei à conclusão que a Cultura deve ser aberta a todos e não um produto hermético propriedade de meia-dúzia de iluminados. Cheguei também à conclusão que quaisquer que sejam os meios que se utilizem para fazer chegar os produtos culturais ao grande público, estes são válidos. Por isso, por fantasioso e incorrecto que seja, o Amadeus de Forman é de louvar. Bem como a interpretação de Gary Oldman enquanto Beethoven - num filme obscuro que relata a 3ª sinfonia. O mesmo faz a "Paixão de Shakespeare", que impinge o texto inteiro de Romeu e Julieta de uma forma acessível para qualquer um.
Eu, porque sou um apreciador de música, conheço a 40ª e a 41ª. Também conheço a 35ª ou a 23ª. E se me perguntarem posso afirmar que prefiro Karl Bohm a Karajan para dirigir Mozart. Mas isto sou eu, que me interesso por música e porque a oiço em qualquer sítio - no carro, na casa de banho ou no trabalho. Mas também aprecio U2, ou Ella Fitzgerald, ou os Stones ou, raramente, Marisa. Isto não faz de mim intelectual ou o raio que me parta: apenas uma pessoa que gosta de música e, vá-se lá saber porquê, de banda desenhada e de chouriço de sangue.
O Grande Mega perdeu mais uma grande oportunidade para estar calado.
February 14, 2006
maniqueismo
Há dois ou três posts atrás utilizei a palavra "pretos" para definir pessoas de uma determinada raça. Anátema! Houve logo um amigo meu que me fez o reparo, rotulando-me de bárbaro: "Ao menos 'negros', João".
Confesso que nunca penso antes de definir alguém como "preto" ou "branco". Não o considero um insulto, nem muito menos uma forma simples de catalogar as pessoas. É pura e simplesmente um termo enraizado na nossa língua, como qualquer outro. Tal como não me considero "branco" - posso ser rosado, arroxeado com frio, beige, amarelado depois de uma valente comezaina, acastanhado no Verão, etc. - também não considero os pretos... pretos. São na melhor das hipóteses castanhos. Alguns mais claros, outros mais escuros, uns de traços fisionómicos típicos da raça mais carregados, outros menos, e pronto. Basicamente são pessoas. E como pessoas que são não tenho de estar com subterfúgios linguísticos "politicamente correctos" para os definir rapidamente, numa frase.
Por outro lado desconfio de termos como "negro", ou o muito americano "african american", ou qualquer outro que revele condescendência e algum sentido de superioridade encapotada. Um preto é um preto, tal como um branco é um branco, e isso não é motivo de orgulho ou pesar. É apenas um tom de pele que revela, no máximo, a adaptabilidade do ser humano ao meio ambiente. O resto é racismo. E semântica.
Confesso que nunca penso antes de definir alguém como "preto" ou "branco". Não o considero um insulto, nem muito menos uma forma simples de catalogar as pessoas. É pura e simplesmente um termo enraizado na nossa língua, como qualquer outro. Tal como não me considero "branco" - posso ser rosado, arroxeado com frio, beige, amarelado depois de uma valente comezaina, acastanhado no Verão, etc. - também não considero os pretos... pretos. São na melhor das hipóteses castanhos. Alguns mais claros, outros mais escuros, uns de traços fisionómicos típicos da raça mais carregados, outros menos, e pronto. Basicamente são pessoas. E como pessoas que são não tenho de estar com subterfúgios linguísticos "politicamente correctos" para os definir rapidamente, numa frase.
Por outro lado desconfio de termos como "negro", ou o muito americano "african american", ou qualquer outro que revele condescendência e algum sentido de superioridade encapotada. Um preto é um preto, tal como um branco é um branco, e isso não é motivo de orgulho ou pesar. É apenas um tom de pele que revela, no máximo, a adaptabilidade do ser humano ao meio ambiente. O resto é racismo. E semântica.
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