September 28, 2007
Não sou grande admirador de Santana Lopes, principalmente depois de tudo aquilo que se passou durante o seu governo. É mesmo um daqueles personagens que me causam mais borbulhas e outros eczemas - eu sabia que um dia ia escrever "eczema" aqui.
Por outro lado, sou um espectador habitual da SIC Notícias: quer dos telejornais, quer dos variados programas de informação nacionais e estrangeiros que por lá passam.
Infelizmente, desta vez estou completamente de acordo com Santana. Interromper uma entrevista sobre o actual estado do PSD (quer queiramos quer não, é um assunto importante para o país) para ver a chegada de Mourinho à Portela revela, no mínimo, falta de educação. Revela também uma falta de senso editorial do outro planeta, falta de senso essa que se está a tornar cada vez mais frequente.
Cada vez é mais recorrente termos telejornais a abrir com "não-notícias", como são o caso de pugilato do treinador da selecção, o despedimente de Mourinho ou o não-ata-nem-desata de Maddie, em detrimento de notícias reais, normalmente relegadas para segundo ou terceiro plano. Eu sei que por questões de share de audiência, de venda de espaço publicitário e por outras questões, tem que se dar ao público o que ele quer. Mas. E é um grande Mas. Os serviços noticiosos têm algumas responsabilidades também, para lá do factor lucro: uma delas é informar. S não o fizerem como deve ser não servem para nada e acabam por desaparecer.
Isto para não falar daqueles costumes sociais em extinção: a boa educação e o respeito.
September 25, 2007
psd
O PSD tem estado muito em baixo. Vazio até. Em parte por culpa de Marques Mendes e em parte por tudo aquilo que se passou durante os governos de Durão Barroso / Santana Lopes. Desta herança não vale a pena gastar falar nem gastar as teclas. De Mendes, há que dizer que não conseguiu, até agora, demonstrar que o PSD "mudou de vida", como afirmou na noite das legislativas ser necessário mudar, nem conseguiu apresentar ao público uma alternativa coerente de governo, com ideias e soluções próprias, limitando-se a navegar ao sabor dos "casos" que os media noticiam.
Se Marques Mendes não mudar de atitude, mais vale mudar de vida e dar o lugar a outro. A qualquer outro, mas não a Luís Filipe Menezes. Isso seria o desastre total para o PSD. O equivalente ao Prestige do PSD. Ou, melhor, o Titanic. Menezes, àparte as crises de choro ocasionais, não passa de um populista demagogo, capaz de enterrar o partido - e o país se chegasse ao governo - em três tempos.
Se Marques Mendes não mudar de atitude, mais vale mudar de vida e dar o lugar a outro. A qualquer outro, mas não a Luís Filipe Menezes. Isso seria o desastre total para o PSD. O equivalente ao Prestige do PSD. Ou, melhor, o Titanic. Menezes, àparte as crises de choro ocasionais, não passa de um populista demagogo, capaz de enterrar o partido - e o país se chegasse ao governo - em três tempos.
September 06, 2007
fine...
Morreu Pavarotti, aos 71 anos.
Para mim, será sempre o melhor tenor de todos os tempos: as gravações que conheço de Caruso não me permitem estabelecer paralelo, de tão más que são.
Pavarotti teve o mérito - e a voz - de popularizar o belcanto, de o tornar tão popular como qualquer outro estilo musical, apesar de todas as limitações que demonstrava em palco. Para mim, a ópera italiana terá sempre o seu rosto.
September 03, 2007
setembro

Acabaram-se as férias. As minhas e as de muitos portugueses. Algumas crianças começam hoje as aulas - como as minhas -, voltam os engarrafamentos na IC19, A5 ou Calçada do Carriche e principalmente, voltam os semblantes carregados de todos aqueles que, depois de um mês a ignorar a realidade, voltam a encarar a "vidinha" e a vê-la de novo negra, sem rumo e sem objectivo.
Depois de um mês completamente desligado de tudo o que é sério, voltamos a olhar para um país deprimente, cansado, que não atrasa nem adianta, onde o discurso é mais importante que as acções, onde a aparência vale mais que o conteúdo.
Agora vão-se fazer os balanços costumeiros e vamos ver que os portugueses continuam a suicidar-se nas estradas da mesma idiótica maneira; vamos ver que o país se encontra mais e mais inseguro, que as escolas continuam uma lástima, que a Justiça não anda nem desanda... que está tudo cada vez mais na mesma. E, como bons portugas que somos, vamos continuar a pegar no Opel Corsa de manhã, vamo-nos continuar a arrastar ao longo do dia num trabalho que não interessa nem ao menino Jesus e chegados a casa ao fim do dia, estupidificamo-nos em frente ao Preço Certo ou à novela da TVI.
Felizmente que o campeonato de futebol recomeçou: sai mais barato que o Xanax.
August 27, 2007
acabou-se

Acabaram-se as férias. Foram curtas mas boas, com bons episódios para mais tarde recordar, como o famoso pudim "Where The Hell Is My Pudding?" - cuja receita não posso revelar mas que inclui ingredientes a menos e uma forma desmesuradamente grande - ou uma canção que envolve uma melodia bastante conhecida e uma letra profundíssima sobre o paradeiro de quatro chinelos de praia.
O Algarve até pareceu o Paraíso.
August 10, 2007
August 07, 2007

Há quase 600 anos chegámos a África. Durante cerca de 500 destes anos evangelizámos, explorámos, escravizámos, povoámos e explorámos de outra forma.
Há quase 40 anos correram connosco. Mas, como colonizadores cruéis que somos, continuamos a martirizá-los sem dó nem piedade: todos os dias, através da RTP África, obrigamo-los a ver a Praça da Alegria!
Haverá limites para a crueldade?
July 31, 2007
July 25, 2007
Manuel Alegre
Não sou socialista, nem me revejo no movimento "Manuel Alegre" das últimas presidenciais, mas quando vejo palavras e ideias pertinentes, devo concordar com elas.
De um artigo do Público, na íntegra:
Nasci e cresci num Portugal onde vigorava o medo. Contra eles lutei a vida inteira. Não posso ficar calado perante alguns casos ultimamente vindos a público. Casos pontuais, dir-se-á.
Mas que têm em comum a delação e a confusão entre lealdade e subserviência. Casos pontuais que, entretanto, começam a repetir-se. Não por acaso ou coincidência. Mas porque há um clima propício a comportamentos com raízes profundas na nossa história, desde os esbirros do Santo Ofício até aos bufos da PIDE. Casos pontuais em si mesmos inquietantes. E em que é tão condenável a denúncia como a conivência perante ela.
Não vivemos em ditadura, nem sequer é legítimo falar de deriva autoritária. As instituições democráticas funcionam. Então porquê a sensação de que nem sempre convém dizer o que se pensa? Porquê o medo? De quem e de quê? Talvez os fantasmas estejam na própria sociedade e sejam fruto da inexistência de uma cultura de liberdade individual.
Sottomayor Cardia escreveu, ainda estudante, que "só é livre o homem que liberta". Quem se cala perante a delação e o abuso está a inculcar o medo. Está a mutilar a sua liberdade e a ameaçar a liberdade dos outros. Ora isso é o que nunca pode acontecer em democracia. E muito menos num partido como o PS, que sempre foi um partido de homens e mulheres livres, "o partido sem medo", como era designado em 1975. Um partido que nasceu na luta contra a ditadura e que, depois do 25 de Abril, não permitiu que os perseguidos se transformassem em perseguidores, mostrando ao mundo que era possível passar de uma ditadura para a democracia sem cair noutra ditadura de sinal contrário.
Na campanha do penúltimo congresso socialista, em 2004, eu disse que havia medo. Medo de falar e de tomar livremente posição. Um medo resultante da dependência e de uma forma de vida partidária reduzida a seguir os vencedores (nacionais ou locais) para assim conquistar ou não perder posições (ou empregos). Medo de pensar pela própria cabeça, medo de discordar, medo de não ser completamente alinhado. No PS sempre houve sensibilidades, contestatários, críticos, pessoas que não tinham medo de dizer o que pensam e de ser contra quando entendiam que deviam ser contra. Aliás, os debates desse congresso, entre Sócrates, eu próprio e João Soares, projectaram o PS para fora de si mesmo e contribuíram em parte para a vitória alcançada nas legislativas. Mas parece que foram o canto do cisne. Ora o PS não pode auto-amordaçar-se, porque isso seria o mesmo que estrangular a sua própria alma.
Há, é claro, o álibi do Governo e da necessidade de reduzir o défice para respeitar os compromissos assumidos com Bruxelas. O Governo é condicionado a aplicar medidas decorrentes de uma Constituição económica europeia não escrita, que obriga os governos a atacar o seu próprio modelo social, reduzindo os serviços públicos, sobrecarregando os trabalhadores e as classes médias, que são pilares da democracia, impondo a desregulação e a flexigurança e agravando o desemprego, a precariedade e as desigualdades. Não necessariamente por maldade do Governo. Mas porque a isso obriga o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) conjugado com as Grandes Orientações de Política Económica. Sugeri, em tempos, que se deveria aproveitar a presidência da União Europeia para lançar o debate sobre a necessidade de rever o PEC. O Presidente Sarkozy tomou a iniciativa de o fazer. Gostei de ouvir Sócrates a manifestar-se contra o pensamento único. Mas é este que condiciona e espartilha em grande parte a acção do seu Governo.
Não vou demorar-me sobre a progressiva destruição do Serviço Nacional de Saúde, com, entre outras coisas, as taxas moderadoras sobre cirurgias e internamentos. Nem sobre o encerramento de serviços que agrava a desertificação do interior e a qualidade de vida das pessoas. Nem sobre a proposta de lei relativa ao regime do vínculo da Administração Pública, que reduz as funções do Estado à segurança, à autoridade e às relações internacionais, incluindo missões militares, secundarizando a dimensão administrativa dos direitos sociais. Nem sobre controversas alterações ao estatuto dos jornalistas em que têm sido especialmente contestadas a crescente desprotecção das fontes, com o que tal representa de risco para a liberdade de imprensa, assim como a intromissão indevida de personalidades e entidades na respectiva esfera deontológica. Nem sobre o cruzamento de dados relativos aos funcionários públicos, precedente grave que pode estender-se a outros sectores da sociedade. Nem ainda sobre a tendência privatizadora que, ao contrário do Tratado de Roma, onde se prevê a coexistência entre o público, o privado e o social, está a atingir todos os sectores estratégicos, incluindo a Rede Eléctrica Nacional, as Águas de Portugal e o próprio ensino superior, cujo novo regime jurídico, apesar das alterações introduzidas no Parlamento, suscita muitas dúvidas, nomeadamente no que respeita ao princípio da autonomia universitária.
Todas estas questões, como muitas outras, são susceptíveis de ser discutidas e abordadas de diferentes pontos de vista. Não pretendo ser detentor da verdade. Mas penso que falta uma estratégia que dê um sentido de futuro e de esperança a medidas, algumas das quais tão polémicas, que estão a afectar tanta gente ao mesmo tempo. Há também o álibi da presidência da União Europeia. Até agora, concordo com a acção do Governo. A cimeira com o Brasil e a eventual realização da cimeira com África vieram demonstrar que Portugal, pela História e pela língua, pode ter um papel muito superior ao do seu peso demográfico. Os países não se medem aos palmos. E ao contrário do que alguém disse, devemos orgulhar-nos de que venha a ser Portugal, em vez da Alemanha, a concluir o futuro Tratado europeu. Parafraseando um biógrafo de Churchill, a presidência portuguesa, na cimeira com o Brasil, recrutou a língua portuguesa para a frente da acção política. Merece o nosso aplauso.
O que não merece palmas é um certo estilo parecido com o que o PS criticou noutras maiorias. Nem a capacidade de decisão erigida num fim em si mesma, quase como uma ideologia. A tradição governamentalista continua a imperar em Portugal. Quando um partido vai para o Governo, este passa a mandar no partido, que, pouco a pouco, deixa de ter e manifestar opiniões próprias. A crítica é olhada com suspeita, o seguidismo transformado em virtude.
Admito que a porta é estreita e que, nas circunstâncias actuais, as alternativas não são fáceis. Mas há uma questão em relação à qual o PS jamais poderá tergiversar: essa questão é a liberdade. E quem diz liberdade diz liberdades. Liberdade de informação, liberdade de expressão, liberdade de crítica, liberdade que, segundo um clássico, é sempre a liberdade de pensar de maneira diferente. Qualquer deriva nesta matéria seria para o PS um verdadeiro suicídio.
António Sérgio, que é uma das fontes do socialismo português, prezava o seu "querido talvez" por oposição ao espírito dogmático. E Antero de Quental chamava-nos a atenção para estarmos sempre alerta em relação a nós próprios, porque "mesmo quando nos julgamos muito progressistas, trazemos dentro de nós um fanático e um beato". Temo que actualmente pouco ou nada se saiba destas e doutras referências.
Não se pode esquecer também a responsabilidade de um poder mediático que orienta a agenda política para o culto dos líderes, o estereótipo e o espectáculo, em detrimento do debate de ideias, da promoção do espírito crítico e da pedagogia democrática. Tenho por vezes a impressão de que certos políticos e certos jornalistas vivem num país virtual, sem povo, sem história nem memória.
Não tenho qualquer questão pessoal com José Sócrates, de quem muitas vezes discordo mas em quem aprecio o gosto pela intervenção política. O que ponho em causa é a redução da política à sua pessoa. Responsabilidade dele? A verdade é que não se perfilam, por enquanto, nenhumas alternativas à sua liderança. Nem dentro do PS nem, muito menos, no PSD. Ora isto não é bom para o próprio Sócrates, para o PS e para a democracia. Porque é em situações destas que aparecem os que tendem a ser mais papistas que o Papa. E sobretudo os que se calam, os que de repente desatam a espiar-se uns aos outros e os que por temor, veneração e respeitinho fomentam o seguidismo e o medo.
Sei, por experiência própria, que não é fácil mudar um partido por dentro. Mas também sei que, assim como, em certos momentos, como fez o PS no verão quente de 75, um partido pode mobilizar a opinião pública para combates decisivos, também pode suceder, em outras circunstâncias, como nas presidenciais de 2006 e, agora, em Lisboa, que os cidadãos, pela abstenção ou pelo voto, punam e corrijam os desvios e o afunilamento dos partidos políticos. Há mais vida para além das lógicas de aparelho. Se os principais partidos não vão ao encontro da vida, pode muito bem acontecer que a recomposição do sistema se faça pelo voto dos cidadãos. Tanto no sentido positivo como negativo, se tal ocorrer em torno de uma qualquer deriva populista. Há sempre esse risco. Os principais inimigos dos partidos políticos são aqueles que, dentro deles, promovem o seu fechamento e impedem a mudança e a abertura.
Por isso, como em tempo de outros temores escreveu Mário Cesariny: "Entre nós e as palavras, o nosso dever falar." Agora e sempre contra o medo, pela liberdade.
De um artigo do Público, na íntegra:
Nasci e cresci num Portugal onde vigorava o medo. Contra eles lutei a vida inteira. Não posso ficar calado perante alguns casos ultimamente vindos a público. Casos pontuais, dir-se-á.
Mas que têm em comum a delação e a confusão entre lealdade e subserviência. Casos pontuais que, entretanto, começam a repetir-se. Não por acaso ou coincidência. Mas porque há um clima propício a comportamentos com raízes profundas na nossa história, desde os esbirros do Santo Ofício até aos bufos da PIDE. Casos pontuais em si mesmos inquietantes. E em que é tão condenável a denúncia como a conivência perante ela.
Não vivemos em ditadura, nem sequer é legítimo falar de deriva autoritária. As instituições democráticas funcionam. Então porquê a sensação de que nem sempre convém dizer o que se pensa? Porquê o medo? De quem e de quê? Talvez os fantasmas estejam na própria sociedade e sejam fruto da inexistência de uma cultura de liberdade individual.
Sottomayor Cardia escreveu, ainda estudante, que "só é livre o homem que liberta". Quem se cala perante a delação e o abuso está a inculcar o medo. Está a mutilar a sua liberdade e a ameaçar a liberdade dos outros. Ora isso é o que nunca pode acontecer em democracia. E muito menos num partido como o PS, que sempre foi um partido de homens e mulheres livres, "o partido sem medo", como era designado em 1975. Um partido que nasceu na luta contra a ditadura e que, depois do 25 de Abril, não permitiu que os perseguidos se transformassem em perseguidores, mostrando ao mundo que era possível passar de uma ditadura para a democracia sem cair noutra ditadura de sinal contrário.
Na campanha do penúltimo congresso socialista, em 2004, eu disse que havia medo. Medo de falar e de tomar livremente posição. Um medo resultante da dependência e de uma forma de vida partidária reduzida a seguir os vencedores (nacionais ou locais) para assim conquistar ou não perder posições (ou empregos). Medo de pensar pela própria cabeça, medo de discordar, medo de não ser completamente alinhado. No PS sempre houve sensibilidades, contestatários, críticos, pessoas que não tinham medo de dizer o que pensam e de ser contra quando entendiam que deviam ser contra. Aliás, os debates desse congresso, entre Sócrates, eu próprio e João Soares, projectaram o PS para fora de si mesmo e contribuíram em parte para a vitória alcançada nas legislativas. Mas parece que foram o canto do cisne. Ora o PS não pode auto-amordaçar-se, porque isso seria o mesmo que estrangular a sua própria alma.
Há, é claro, o álibi do Governo e da necessidade de reduzir o défice para respeitar os compromissos assumidos com Bruxelas. O Governo é condicionado a aplicar medidas decorrentes de uma Constituição económica europeia não escrita, que obriga os governos a atacar o seu próprio modelo social, reduzindo os serviços públicos, sobrecarregando os trabalhadores e as classes médias, que são pilares da democracia, impondo a desregulação e a flexigurança e agravando o desemprego, a precariedade e as desigualdades. Não necessariamente por maldade do Governo. Mas porque a isso obriga o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) conjugado com as Grandes Orientações de Política Económica. Sugeri, em tempos, que se deveria aproveitar a presidência da União Europeia para lançar o debate sobre a necessidade de rever o PEC. O Presidente Sarkozy tomou a iniciativa de o fazer. Gostei de ouvir Sócrates a manifestar-se contra o pensamento único. Mas é este que condiciona e espartilha em grande parte a acção do seu Governo.
Não vou demorar-me sobre a progressiva destruição do Serviço Nacional de Saúde, com, entre outras coisas, as taxas moderadoras sobre cirurgias e internamentos. Nem sobre o encerramento de serviços que agrava a desertificação do interior e a qualidade de vida das pessoas. Nem sobre a proposta de lei relativa ao regime do vínculo da Administração Pública, que reduz as funções do Estado à segurança, à autoridade e às relações internacionais, incluindo missões militares, secundarizando a dimensão administrativa dos direitos sociais. Nem sobre controversas alterações ao estatuto dos jornalistas em que têm sido especialmente contestadas a crescente desprotecção das fontes, com o que tal representa de risco para a liberdade de imprensa, assim como a intromissão indevida de personalidades e entidades na respectiva esfera deontológica. Nem sobre o cruzamento de dados relativos aos funcionários públicos, precedente grave que pode estender-se a outros sectores da sociedade. Nem ainda sobre a tendência privatizadora que, ao contrário do Tratado de Roma, onde se prevê a coexistência entre o público, o privado e o social, está a atingir todos os sectores estratégicos, incluindo a Rede Eléctrica Nacional, as Águas de Portugal e o próprio ensino superior, cujo novo regime jurídico, apesar das alterações introduzidas no Parlamento, suscita muitas dúvidas, nomeadamente no que respeita ao princípio da autonomia universitária.
Todas estas questões, como muitas outras, são susceptíveis de ser discutidas e abordadas de diferentes pontos de vista. Não pretendo ser detentor da verdade. Mas penso que falta uma estratégia que dê um sentido de futuro e de esperança a medidas, algumas das quais tão polémicas, que estão a afectar tanta gente ao mesmo tempo. Há também o álibi da presidência da União Europeia. Até agora, concordo com a acção do Governo. A cimeira com o Brasil e a eventual realização da cimeira com África vieram demonstrar que Portugal, pela História e pela língua, pode ter um papel muito superior ao do seu peso demográfico. Os países não se medem aos palmos. E ao contrário do que alguém disse, devemos orgulhar-nos de que venha a ser Portugal, em vez da Alemanha, a concluir o futuro Tratado europeu. Parafraseando um biógrafo de Churchill, a presidência portuguesa, na cimeira com o Brasil, recrutou a língua portuguesa para a frente da acção política. Merece o nosso aplauso.
O que não merece palmas é um certo estilo parecido com o que o PS criticou noutras maiorias. Nem a capacidade de decisão erigida num fim em si mesma, quase como uma ideologia. A tradição governamentalista continua a imperar em Portugal. Quando um partido vai para o Governo, este passa a mandar no partido, que, pouco a pouco, deixa de ter e manifestar opiniões próprias. A crítica é olhada com suspeita, o seguidismo transformado em virtude.
Admito que a porta é estreita e que, nas circunstâncias actuais, as alternativas não são fáceis. Mas há uma questão em relação à qual o PS jamais poderá tergiversar: essa questão é a liberdade. E quem diz liberdade diz liberdades. Liberdade de informação, liberdade de expressão, liberdade de crítica, liberdade que, segundo um clássico, é sempre a liberdade de pensar de maneira diferente. Qualquer deriva nesta matéria seria para o PS um verdadeiro suicídio.
António Sérgio, que é uma das fontes do socialismo português, prezava o seu "querido talvez" por oposição ao espírito dogmático. E Antero de Quental chamava-nos a atenção para estarmos sempre alerta em relação a nós próprios, porque "mesmo quando nos julgamos muito progressistas, trazemos dentro de nós um fanático e um beato". Temo que actualmente pouco ou nada se saiba destas e doutras referências.
Não se pode esquecer também a responsabilidade de um poder mediático que orienta a agenda política para o culto dos líderes, o estereótipo e o espectáculo, em detrimento do debate de ideias, da promoção do espírito crítico e da pedagogia democrática. Tenho por vezes a impressão de que certos políticos e certos jornalistas vivem num país virtual, sem povo, sem história nem memória.
Não tenho qualquer questão pessoal com José Sócrates, de quem muitas vezes discordo mas em quem aprecio o gosto pela intervenção política. O que ponho em causa é a redução da política à sua pessoa. Responsabilidade dele? A verdade é que não se perfilam, por enquanto, nenhumas alternativas à sua liderança. Nem dentro do PS nem, muito menos, no PSD. Ora isto não é bom para o próprio Sócrates, para o PS e para a democracia. Porque é em situações destas que aparecem os que tendem a ser mais papistas que o Papa. E sobretudo os que se calam, os que de repente desatam a espiar-se uns aos outros e os que por temor, veneração e respeitinho fomentam o seguidismo e o medo.
Sei, por experiência própria, que não é fácil mudar um partido por dentro. Mas também sei que, assim como, em certos momentos, como fez o PS no verão quente de 75, um partido pode mobilizar a opinião pública para combates decisivos, também pode suceder, em outras circunstâncias, como nas presidenciais de 2006 e, agora, em Lisboa, que os cidadãos, pela abstenção ou pelo voto, punam e corrijam os desvios e o afunilamento dos partidos políticos. Há mais vida para além das lógicas de aparelho. Se os principais partidos não vão ao encontro da vida, pode muito bem acontecer que a recomposição do sistema se faça pelo voto dos cidadãos. Tanto no sentido positivo como negativo, se tal ocorrer em torno de uma qualquer deriva populista. Há sempre esse risco. Os principais inimigos dos partidos políticos são aqueles que, dentro deles, promovem o seu fechamento e impedem a mudança e a abertura.
Por isso, como em tempo de outros temores escreveu Mário Cesariny: "Entre nós e as palavras, o nosso dever falar." Agora e sempre contra o medo, pela liberdade.
July 19, 2007
July 18, 2007
lá vai lisboa…

E assim se passou mais um dia de eleições na capital: a adesão popular foi maciça - 26% de eleitores é muito eleitor para votar naqueles candidatos; a adesão dos militantes do PS foi de arromba - de tal modo que tiveram de os trazer de autocarro de Sta. Comba Dão; e lá ficou Lisboa, na mesma, sem uma única ideiazita daquilo que se quer para a urbe.
O costume. Diga-se de passagem que daqui a dois anos é que é à séria: isto agora foi só para arrancar de lá o Carmona.
Na noite eleitoral ouviram-se os mais ridículos discursos de vitória, além dos discursos do PSD e do CDS. Infelizmente, do meu ponto de vista, todos perderam:
- Costa perdeu porque nem mobilizou os cidadãos nem conseguiu uma maioria, o que seria expectável depois do Desastre Carmona e tendo do seu lado uma maioria governamental estável
- Carmona perdeu porque passou de presidente a vereador, ou seja, passou de cavalo para burro
- Roseta perdeu porque convenceu apenas 21 000 pessoas de um universo de cerca de 600 000
- Sá Fernandes perdeu porque, apesar de todo o mediatismo a que teve direito durante a sua vereação, não cresceu nem um votito
- Lisboa perdeu porque, mais uma vez, fica tudo na mesma.
July 11, 2007
mundo de aventuras

Contactar com o mundo cultural tuga é uma experiência divertida. Divertida mas aterradora. Comprei na Fnac, não para mim, dois livrinhos de Lindsay Clarke: A Guerra de Tróia e O Regresso de Tróia. Basicamente são a Ilíada e a Odisseia sem o versejar, o que deve ser simpático. A 17,95 € o tomo, é bom que sejam simpáticos.
Hoje tive contacto mais directo com os ditos livritos e, após a chamada de atenção da proprietária, cheguei à conclusão que a D. Irene Daun e Lorena e o Sr. Nuno Daun e Lorena (tradutores), acompanhados pelo Sr. Nataniel Oliveira (o revisor) são uns perfeitos anormais. Desde o mapa inicial, onde Tróia é “Tr ia”, Atenas é “ tenas” e onde nos são apresentadas as originais cidades de “ ulis” e “C lidon”, a frases maravilhosas como "(...) Afrodite estava demasiado deliciada com o seu triunfo para sentir incomodada com maldade das suas divinas (...)” - parágrafo que sugere que o livro deveria ser acompanhado por um Kit de Artigos e Preposições, para tornar a experiência literária verdadeiramente interactiva - todo o livro é um conjunto de mau português, erros ortográficos e disparates inenarráveis, o que o(s) torna perfeitamente ilegíveis.
Moral da história: não volto a comprar nada que tenha a chancela da Bertrand. Nadinha. Nicles. Ao mesmo tempo reforça-se a minha inclinação para não ler nada traduzido em português: não vale a pena. Em terceiro lugar, não vale a pena comprar livros em Portugal: a mesma obra na Amazon UK, já com portes, vale 11,00 €.
June 18, 2007
post aéreo

Ota ou Alcochete? Poceirão ou Montijo? Arroz de Gambas ou Cozido à Portuguesa? Já que toda a gente opina sobre a localização do novo aeroporto de Lisboa, porque não hei de eu fazê-lo? Mas como sou um ignorante inenarrável, primeiro tive de ir ao mapita ver onde raio ficam a Ota e Alcochete. Aquilo que vi no Google Maps e no Google Earth - e já agora no mapa do ACP - leva-me a tecer uma primeira consideração: se o aeroporto é de Lisboa (e não do Porto, de Leiria ou de Salvaterra de Magos) Alcochete serve muito melhor o seu propósito: é mais próximo da cidade, tem melhores acessibilidades tanto à cidade como à maior região turística do país - o Algarve - e à Extremadura Espanhola, o que não é propriamente de desprezar.
Por outro lado, ouvi umas coisitas nas notícias que dão nova vantagem a Alcochete: os terrenos de Alcochete são do Estado, permitindo poupar uma fortuna em expropriações; a construção do dito é também bastante mais fácil do ponto de vista da Engenharia, o que permite poupar mais uns cobres (cerca de 30% do custo global ou, em números a sério, 500 milhões de euros); como consequência do ponto anterior, é substancialmente mais rápido construir em Alcochete.
Se considerarmos as opiniões dos especialistas, que afirmam que um novo aeroporto é urgentérrimo, e considerarmos também a crua realidade, que Portugal é um país pobre como Job, onde é que está a dúvida? Nos problemas ambientais? Um aeroporto é sempre um crime ambiental, nem que fosse construído no meio do Trancão.
Quanto à solução Portela-mais-Um... Bom... andamos há décadas a dizer que ter um aeroporto no meio da cidade é um convite ao desastre, portanto para quê continuar a insistir na asneira? Para além disso, já que se vai gastar uma fortuna quase pornográfica para aterrar aviões, porque não pensar a longo prazo (contra o costume) em vez de se arranjar mais uma solução de desenrasca?
Só tenho uma dúvidazinha: quais são os interesses imobiliários que se movem por trás de cada uma das propostas?
May 28, 2007
travel book

"Viajava havia horas sob o sol abrasador do deserto. Tinha atravessado a ponte sobre o rio que marcava a fronteira entre a civilização e a inclemência da Natureza, entre a Pátria e esta Terra de Ninguém, encontrando-me agora na paisagem semi-lunar e desértica, sem vivalma nem traço de progresso, imaginando-me sempre a perder o Norte no emaranhado de dunas, ficando sem gasolina e à mercê deste ambiente inóspito e desumano.
Felizmente, após esta hercúlea travessia, surge o verde "ouëd" do Allgarve: progressista, urbanisticamente desenvolvido, de paisagens luxuriantes, com todas as amenidades e confortos do século XXI…
Sobrevivi."
(post inspirado na falta de gasolina que me fez rir no fim-de-semana)
May 24, 2007
idiota
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