September 23, 2004

dia sem... respeito


taxi
Originally uploaded by joaoserpa.



Parece que ontem foi o dia europeu sem carros. Sinceramente não dei por nada; enquanto andava a trabalhar o trânsito continuava a ser o granel do costume, nem mais nem menos; não vi autocarros extra na estrada; Lisboa não estava em nada semelhante a Pequim na década de '70, com bicicletas e riquexós aos molhos.

Dá-me a ideia que uma cidade como Lisboa, Porto ou qualquer uma da periferia destas aderir ao dia europeu sem carros é um insulto descomunal aos seus habitantes, fixos ou flutuantes.

Lisboa tem um único serviço de transportes públicos que funciona bem: o metro (o Porto também já tem metro mas não vale a pena falar disso... os portuenses são um povo sensível); tudo o resto é de uma miséria franciscana. Os autocarros, por outro lado, são inacreditavelmente maus, sujos e antiquados, com uma noção de horários próxima da ficção científica. Os eléctricos... basta dizer que o Eça de Queiroz reconhecê-los-ia num relance. Quanto aos comboios suburbanos, estão dimensionados para uma poulação urbana de 150 000 almas, quando só a área metropolitana de Lisboa tem 2 000 000 de habitantes. Além disso, dois termos que nunca se encontram em conjunto são "estação de comboio" e "parque de estacionamento": como é que passaria pela cabeça de alguém sujeitar-se a deixar o carro a um quilómetro da estação num parque sem guarda, apanhar uma molha fantástica até ao comboio, chegar à gare de destino e desesperar por um autocarro que o leve ao trabalho, se pode ir confortavelmente de pópó até ao centro e estacionar impunemente em cima do passeio à porta do emprego?

É muito bonito apoiar o dia europeu apeado, ou tentar sensibilizar as pessoas para deixarem o carocha à porta de casa e utilizarem os transportes públicos, porque as cidades estão saturadas, porque é melhor para o ambiente, porque isto ou aquilo... mas, se não forem criadas as condições necessárias que satisfaçam o comodismo natural das pessoas, não vale a pena celebrar seja o que fôr, ou gastar rios de dinheiro em campanhas de sensibilização.

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