September 13, 2004

Estradas

Notícia dos diários nacionais: mais uma dezena e meia de mortos nas estradas na passada semana, ou coisa que o valha.
Muito honestamente, já nem percebo porque é que isto é notícia. Notícia seria "Esta Semana Não Houve Mortos nem Feridos nas Nossas Estradas.
Dá-me a ideia que o português, assim que entra no automóvel, transforma-se num lémingue: estes vêm uma falésia e atiram-se; nós entramos no carro e atiramo-nos para cima uns dos outros.
O mais engraçado é tentar atribuir culpas a esta situação. É certo que o portuga médio, no seu pópó, é de uma falta de educação e civismo inenarrável. A partir do momento em que faz o exame de condução esquece o significado de todas as regras e sinais e atira-se à estrada como se esta lhe pertencesse e fosse o único a circular nela. Limites de velocidade tornam-se um conceito tão vago como a teoria de relatividade de Einstein. Sempre que vê um semáforo torna-se imediatamente daltónico. Provavelmente pensa que aqueles tracitos no chão são obra de artistas de graffiti (esses camelos que deviam andar a trabalhar para viver, os animais). E assim sucessivamente.
Claro que isto é em parte verdade: a educação dos portugueses - e respectivo civismo - deixa muito a desejar. Mas a atitude das autoridades ajuda muito ao estado lamentável a que chegámos: se a BT circulasse nas estradas, mostrando-se e dando o exemplo, o comportamento dos condutores mudava concerteza, dado que sempre que se vê um carro da Brigada na auto-estrada, o condutor nacional passa sempre a circular 30 Km/h abaixo do limite, numa atitude tipicamente portuguesa; o facto da autoridade preferir ir para trás da moita com o radar (e se calhar aproveitar para mais qualquer coisa) não é minimamente dissuasor, tendo em conta que o condutor conhece bem a falta de meios crónica das autoridades e, portanto, arrisca; o facto do carrito da Brigada usar as luzinhas do tejadilho, a sirene e o excesso de velocidade para chegar mais depressa à área de serviço "porque aqui não há moitas, pá" não ajuda muito a que os condutores respeitem as autoridades, e não tomem aquela atitude fabulosa do "da-sse! s'os gajos podem avacalhar, toca de dar gás qu'eu também sou filho de Deus".
Também ajudaria um pouco se as nossas estradas e auto-estradas fossem pensadas. Só pensadas. Por exemplo, não cabe na cabeça de ninguém que uma via de aceleração de entrada numa auto-estrada, tenha 20 metros. É um convite ao desastre. Ou, por outro lado, que a maior parte da sinalização esteja caída, pintada por cima ou atrás da moita (não me perguntem o que é que a BT faz lá com ela). Há que rever os limites de velocidade, adequando-os ao ritmo de vida e automóveis actuais. Há que construir vias como deve de ser. Há que colocar e manter a sinalização necessária. E, acima de tudo, há que dar meios e formação aos agentes de autoridade.

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