September 04, 2004

O barco do amor

O Barco do Amor era uma série televisiva perfeitamente asinina, do início dos anos 80; mas não era nada comparada com o disparate que se vive neste país relacionado com o Barco do Aborto. Se olharmos para o problema friamente, a atitude do Governo está absolutamente correcta: o aborto não é legal em Portugal, logo o barco não atraca nem opera. Case closed.

Infelizmente, o problema não é assim tão simples. Todos os anos centenas de portuguesas recorrem ao aborto nas condições mais deploráveis, algumas não sobrevivendo ao "processo". Todos os anos alguns médicos cobram somas divertidas para fazer aquilo que a lei e o seu código proíbem. Todos os anos as autoridades fecham os olhos a uma actividade recorrente. Quer queiramos quer não, seja por razões económicas, sociais ou outras, o aborto é praticado regularmente nesta terra.
Diz hoje um jornal que "a linha telefónica de apoio que a organização holandesa Women On Waves (WOW) disponibiliza desde sábado passado já recebeu perto de 100 pedidos de ajuda de mulheres portuguesas interessadas em interromper a gravidez"; diz ainda uma das entrevistadas que "Entre 90 a 100 foram pedidos de ajuda de mulheres interessadas em interromper a gravidez. Mas também recebemos pedidos de informação na área da educação sexual e reprodutiva, manifestações de apoio e alguns protestos".
Não me parece que seja necessário dizer muito mais. A não ser o seguinte: a proibição do aborto é uma medida hipócrita, indefensável em qualquer sociedade moderna e aberta. Sem dúvida que o aborto em si é um acto abominável... um crime, onde uma vida (quase) humana é morta. Mas não tenho a menor dúvida que também é um acto de desespero, que provavelmente não termina com o aborto em si, mas sim começando nesse momento.

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