Li no Rititi (rima e é verdade) um post sobre um artigo de João César das Neves sobre (presumo) costumes. Clicando no link providenciado pelo Rititi, fiz download do artigo publicado n'O Independente com o título "Qualquer dia a pedofilia vai acabar por ser legalizada". Para compreender o teor da entrevista basta ler o destaque do blog:
A nossa obsessão pelo prazer carnal está a destruir a sociedade e a criar a decadência, como criou noutras sociedades. O nosso tempo é um tempo de excessos. A falta de regras passou a ser uma coisa normal. O resultado está à vista. A nossa sociedade não é mais feliz, porque se entregou completamente ao prazer carnal.
Bom...
Normalmente dispenso-me de comentar este tipo de opiniões, porque quanto a mim valem o que valem, mas neste caso vou fazer uma excepçãozita.
A nossa obsessão pelo prazer carnal não é propriamente de agora: faz parte dos mecanismos de sobrevivência da espécie. Basta ler O Macaco Nu, de Desmond Morris, por exemplo, para compreender que o sexo - o sexo sem o objectivo de procriar - é uma das formas que a espécie encontrou para conseguir uma sociedade coesa e cooperativa, essencial à sobrevivência. Sempre que as sociedades tentaram travar o ímpeto sexual humano apenas o conseguiram fazer aparentemente, dado que as pessoas continuaram a praticar aquilo que lhes é necessário (e que lhes sabe tão bem) - mas às escondidas.
O prazer carnal, seja que de forma for manifestado, não destrói a sociedade: antes pelo contrário, permite que esta exista. Ao contrário dos mitos bíblicos de Sodoma e Gomorra, nenhuma sociedade caiu por deboche. Nem Roma, que terá caído por inércia, corrupção, fraqueza, exaustão de recursos, doença ou crescimento dos povos que a rodeavam, não pelo sexo.
Só um aparte: consigo imaginar o que se praticava em Sodoma, mas... e em Gomorra? Alguém me pode responder a isto?
Aquilo que faz "cair" uma sociedade não é a preversão sexual, mas sim a preversão das regras e dos sistemas de regulação dessas sociedades, a corrupção e os privilégios arbitrários.
A passagem "Antes da Igreja era o deboche absoluto. Abandonar a Igreja significa voltar ao mesmo." revela uma ignorância histórica fabulosa, pois aquilo que era praticado pelos representantes da igreja é visto ainda hoje, nestes dias mais iluminados, como do mais "debochado" possível.
Confesso que não li o artigo por inteiro, mas comparar a homosexualidade à pedofilia é o mesmo que comparar a venda de selos pelos CTT com o assassínio: enquanto que a homosexualidade é praticada por adultos consentâneos, em que ambas as partes têm a consciência e a vontade de o fazer - e ninguém tem nada com isso -, no acto pedófilo uma das partes não tem a menor consciência daquilo que está a fazer, nem de como isso a vai marcar para o resto da sua vida. A pedofilia, mesmo que não o aparente, é sempre uma violação.
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