March 10, 2005

pêxe



Quando era miúdo, lembro-me de andar em Lisboa com os meus pais e, esquina sim, esquina não, viam-se estacionadas em cima do passeio umas carrinhas Citroën Tipo H, com um peixe enorme e colorido pintado no painel lateral e com a porta traseira aberta, onde uma senhora - normalmente mais velha que o André Citroën - vendia o peixe exposto num balcão improvisado.
É talvez das memórias da minha infância que me causam mais estranheza.
Lembro-me perfeitamente de haver uma regularmente estacionada na Av. António Augusto Aguiar, onde também se plantavam vendedoras de fruta e outras de flores (sem carrinha), e normalmente faziam uma algazarra desgraçada a conversar entre si, tendo as clientes de esperar indefinidamente por serem atendidas enquanto se desenrolava a história do "meu manelito" ou qualquer desgraça alheia adquirida "por ouvir dizer". Assim qualquer passante ficava a conhecer as histórias mirabolantes da parentela ou actualizava-se relativamente ao último acidente/assalto/adultério da vizinhança, normalmente a pelo menos 500 Wats de volume e em estéreo.

Longe de defender o comércio de peixe e outros géneros nestas condições sanitárias do além, acho que as nossas cidades perderam muito carácter com as grandes superfícies, hipermercados e centros comerciais que nasceram como cogumelos nas últimas décadas. As ruas das cidades passaram a ser apenas local de trânsito - de pessoas, veículos e animais lazarentos - e perderam vida.
É certo que se ganhou muito silêncio.

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