March 30, 2006

carapaus à espanhola

Um energúmeno qualquer do CDS quer que o partido seja sexy, o PM quer mandar vir espanholas, a presidente da câmara de Felgueiras ri-se impunemente de uma Justiça ineficaz e corrupta, o presidente da câmara de Gondomar insulta alarvemente todos os seus adversários, o presidente da região autónoma da Madeira insulta, também de forma alarve e regularmente, o Governo e 99% dos portugueses, ao que se sabe a maioria dos autarcas deste país são absurdamente corruptos, tal como o são dirigentes desportivos, funcionários públicos, construtores civis, árbitros, juízes...

Não me surpreende nada o nível baixinho, rasteirinho, do debate na Assembleia, seja ele qual for. O que me surpreende é haver quem se surpreenda com isto. Porque "isto" é Portugal. Não no seu melhor mas no seu estado normal. O comentário "à espanhola", digno de Palma Cavalão e do Eusébiozinho como muitos notaram, significa simplesmente que não evoluímos nada desde o final do século XIX, quando Eça apontava os mesmos problemas na sociedade portuguesa que todos hoje apontam. E nesse século escrevia-se que esses mesmos problemas já vinham do tempo de D. João VI e, provavelmente, assim sucessivamente.
À época, atribuía-se este estado de coisas a uma monarquia decadente; há 40 anos atrás, a uma ditadura serôdia; hoje, a uma classe política corrupta. Mas se olharmos para o problema de frente, sem devaneios, vemos que o problema é simplesmente nosso. De todos. O problema está na nossa indiferença, seja profissional, seja na participação cívica, na decisão política, seja no âmbito familiar, seja lá onde for. Os políticos, sejam os monarcas reinantes de antanho (gira, esta), sejam os democratas de hoje, não são mais que um reflexo da generalidade dos portugueses, e estes são, infelizmente, um povo tacanho, de mente fechada, conservador, ignorante na sua grande maioria, com horror ao seu passado e um medo absoluto do futuro. Preferimos escondermo-nos atrás do soporífero do futebol e da novela acéfala a encarar os nossos problemas diários e a encontrar formas de os resolver. Extrapolando esta atitude do indivíduo para a comunidade, é fácil observá-la na forma como as empresas são geridas ou na forma como o Estado "gere" o país.

A solução? É mais do que óbvia, mas isso implica ignorar o Benfica x Barcelona, levantar o cu do sofá e fazer alguma coisa. Mas isso dá uma trabalhêra...

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