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Há 100 anos mataram um rei. Apesar de ser um acto relativamente comum na Europa, foi inédito em Portugal. E, comum ou inédito, este acto tem um nome: assassínio. É um crime. O termo regicídio tenta, de alguma forma, dar uma dimensão política e desculpável àquilo que é, para todos os efeitos, um crime como qualquer outro.
Este crime facilitou a implantação da República dois anos mais tarde, dado que o rei D. Manuel II não passava de um miúdo imberbe sem preparação nenhuma para o cargo que exercia. Apesar disto os defensores da República preferiram impôr o novo regime através de uma revolução em vez de seguirem uma via mais... abrangente.
Portugal era, desde o reinado de D. Luís, uma democracia. Mais ou menos. A democracia possível há época, onde só votavam homens, e mesmo assim só aqueles que sabiam ler e escrever. De qualquer modo, Portugal era um reino tão democrático como qualquer outro na Europa. A liberdade de imprensa era um facto e, inédito num país de iletrados, haviam cerca de 500 jornais em circulação. Todos eles com o direito de tratarem o rei e os sucessivos governos como bombos de festa. Se algum jornal de hoje tratasse Sócrates como os da época tratavam D. Carlos caía o Carmo e a Trindade.
Fora os períodos esporádicos de ditadura - como a de João Franco - em que se atrasava a abertura das cortes para permitir a implementação de medidas excepcionais, os governos eram eleitos pela maioria dos votantes.
Assim sendo, porque é que o Partido Republicano não tentou sufragar a mudança de regime de uma forma que respeitasse o regime democrático da época? Provavelmente porque sabia que não seria apoiado pela maioria da população. Ou porque não estava disposto a esperar mais anos para tomar o lugar no poleiro a que aspirava.
Seja como for, o que é que mudou no país com a transição de um regime para o outro? Se olharmos para o período republicano, vemos cerca de 17 anos de guerras civis permanentes e 48 anos de ditadura que, até 1974, só serviram para atrasar ainda mais o país relativamente à restante Europa. Não quero com isto dizer que é certo que se o regime não tivesse mudado não estaríamos na mesma posição passados 100 anos, mas é provável que com um dos vértices do poder fora do jogo político-partidário teriam havido condições mais estáveis de governo, impedindo a maior parte das guerras civis e, subsequentemente, tendo ficado Salazar remetido ao seu papel de professor ou coisa que o valha.
Hoje em dia é de todo indiferente se temos uma república ou uma monarquia. O nosso país é uma democracia parlamentar e quem se senta em Belém não influencia muito o decorrer da vida nacional. Por isso me espanta tanto ver alguns indivíduos a defender os "valores republicanos" ou a gritar "real, real por el-rei de portugal".
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