February 04, 2008

centenário com dias de atraso


Há 100 anos mataram um rei. Apesar de ser um acto relativamente comum na Europa, foi inédito em Portugal. E, comum ou inédito, este acto tem um nome: assassínio. É um crime. O termo regicídio tenta, de alguma forma, dar uma dimensão política e desculpável àquilo que é, para todos os efeitos, um crime como qualquer outro.

Este crime facilitou a implantação da República dois anos mais tarde, dado que o rei D. Manuel II não passava de um miúdo imberbe sem preparação nenhuma para o cargo que exercia. Apesar disto os defensores da República preferiram impôr o novo regime através de uma revolução em vez de seguirem uma via mais... abrangente.
Portugal era, desde o reinado de D. Luís, uma democracia. Mais ou menos. A democracia possível há época, onde só votavam homens, e mesmo assim só aqueles que sabiam ler e escrever. De qualquer modo, Portugal era um reino tão democrático como qualquer outro na Europa. A liberdade de imprensa era um facto e, inédito num país de iletrados, haviam cerca de 500 jornais em circulação. Todos eles com o direito de tratarem o rei e os sucessivos governos como bombos de festa. Se algum jornal de hoje tratasse Sócrates como os da época tratavam D. Carlos caía o Carmo e a Trindade.
Fora os períodos esporádicos de ditadura - como a de João Franco - em que se atrasava a abertura das cortes para permitir a implementação de medidas excepcionais, os governos eram eleitos pela maioria dos votantes.
Assim sendo, porque é que o Partido Republicano não tentou sufragar a mudança de regime de uma forma que respeitasse o regime democrático da época? Provavelmente porque sabia que não seria apoiado pela maioria da população. Ou porque não estava disposto a esperar mais anos para tomar o lugar no poleiro a que aspirava.

Seja como for, o que é que mudou no país com a transição de um regime para o outro? Se olharmos para o período republicano, vemos cerca de 17 anos de guerras civis permanentes e 48 anos de ditadura que, até 1974, só serviram para atrasar ainda mais o país relativamente à restante Europa. Não quero com isto dizer que é certo que se o regime não tivesse mudado não estaríamos na mesma posição passados 100 anos, mas é provável que com um dos vértices do poder fora do jogo político-partidário teriam havido condições mais estáveis de governo, impedindo a maior parte das guerras civis e, subsequentemente, tendo ficado Salazar remetido ao seu papel de professor ou coisa que o valha.

Hoje em dia é de todo indiferente se temos uma república ou uma monarquia. O nosso país é uma democracia parlamentar e quem se senta em Belém não influencia muito o decorrer da vida nacional. Por isso me espanta tanto ver alguns indivíduos a defender os "valores republicanos" ou a gritar "real, real por el-rei de portugal".

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