Depois de uma volta pelos blogs favoritos, vi que muitos falam, opinam e discorrem sobre a eutanásia. Deve ter havido um programa de televisão sobre o assunto.
A eutanásia é, tal como o aborto, um daqueles temas difíceis que geram discussões ferozes e espúreas. Ambas as práticas - o aborto e a eutanásia - tocam demasiado fundo nos nossos costumes e tradições milenares para deixar alguém indiferente.
Moralmente, ou pelo menos à luz da moral vigente, ambos os actos são condenáveis. Mas há uma pequena diferença: enquanto no acto do aborto ninguém pergunta a opinião à parte interessada, na eutanásia há uma vontade expressa claramente por um ser humano lúcido - e só assim a concebo - que decide não desejar viver mais, por não ter mais condições para isso. Claro que, para uma população que ainda "vê" o mundo com os olhos da doutrina cristã, que nega o suicídio e acredita que o destino de todos está nas mãos de uma qualquer entidade divina, a prática da eutanásia está demasiado próximo do pecado e da imoralidade. Não creio, por isso, que a eutanásia seja facilmente aceite na nossa terrinha num futuro próximo.
De um ponto de vista frio e racional, não há nada que impeça, creio, que uma pessoa lúcida decida não querer viver se não tiver reunidas as condições de dignidade mínimas de vida. E o mais engraçado é que ninguém tem nada com isso.
No entanto acho que há temas muito mais importantes e urgentes a discutir na área da Saúde em Portugal que a eutanásia. Num país em que há listas de espera de meses ou anos para cirurgias simples, onde as urgências são de uma ineficácia indescritível, onde os Centros de Saúde são de todo inoperantes, onde há apenas os hospitais necessários para servir uma população da dimensão do Liechtenstein, onde os médicos são completamente impunes por erros grosseiros e onde se recusam a prescrever medicamentos mais baratos por interesses corporativos ou por corrupção, parece-me que deveríamos deixar a discussão da eutanásia para daqui a uma década e concentrarmo-nos naqueles problemas que são realmente urgentes.
O que vale é que assim o Bloco de Esquerda tem mais uma bandeira para acenar em comício ou entrevista.
1 comment:
ooops. Santa ignorância a minha. Mas vai dar ao mesmo.
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