September 05, 2005

governemo-nos

O PS tem paixões. O Sr. Guterres tinha a paixão pela educação. Acabou com a paixão pelo tacho lá fora, nem que tivesse que confraternizar com os pobrezinhos. O Sr. Sócrates já teve várias: a racionalização dos serviços do Estado, as obras megalómanas, as energias alternativas e agora, de modo original, a Educação. Primeira medida a implementar: o ensino de inglês no primeiro ciclo. Começam já 2000 escolinhas a leccioná-lo.

Pela experiência que tive, o ensino de inglês numa escola pública é tão útil como uma tromba num rinoceronte: menininho priveligiado que fui - apesar dos meus pais não serem ricos - gramei oito anos de farda, "pulóver" verde, gravata às riscas e peúga cinzenta. Da segunda-classe ao 9º ano frequentei um colégio privado, very british.
Acabado o colégio fui atirado para o ensino público sem rede e, assim que entrei na aula de inglês, tive dos maiores ataques de gozo da minha vida: o professor, respeitável e altivo, pronunciou o seu "gude mórningue éveriuâne" com um sotaque digno de uma vaca espanhola, e lançou-se na leitura do sumário que (espante-se) sumarizava uma lição digna da minha 2ª classe - ou do kindergarten, mas esse não frequentei portanto não afianço. Claro que ao longo do ano não prestei puto de atenção ao senhor, que de inglês sabia tanto como eu sei de Grego Demótico, e tirei uma nota monumental (das poucas).

Evidentemente que a minha experiência tem pouco de relevante para o caso mas leva-me a perguntar qual a utilidade do ensino inglês no primeiro ciclo. No meu caso o ensino intensivo da língua de Shakespeare só me foi útil algumas décadas mais tarde, por questões profissionais.
Claro que tenho algumas vantagens em relação ao português médio: leio Shakespeare - e Dickens, Waugh, Jerome, Pratchett, Fitzerald e o resto da maralha - na língua original. Mas porque gosto de ler, não porque aprendi inglês desde a minha tenra infância. Senão teria passado ao lado de Zola, de Dumas e de Hugo. Ou de Pessoa, Saramago e de Lobo Antunes. Faço-o porque (principalmente) o meu pai me incutiu o gosto pela leitura, fosse policial, romance, ficção científica, aventura ou as Páginas Amarelas. Também o faço porque na escolita inglesa tinha de ler em inglês, português e francês, quer me apetecesse quer não.

Mais útil que pôr os putos a papaguear "Mary has a red ball. She plays with a red ball. Uncle James watches Mary playing with the ball. Maybe he´s a pedophile" manhãs sem fim, seria dar-lhes escolas em condições, com professores com carreiras estabilizadas (e não a pulularem pelo país de quatro em quatro anos como agora é intenção) e bem formados e, acima de tudo, ensinar-lhes a língua materna como deve ser.
Se isto fôr feito, não só teremos entrevistas televisivas mais dignas sempre que há uma calamidade natural ("ó pá, o fogo vinha d'além e eu pisguei-me e não vi máinada") e, sabendo bem português, quando chegassem ao 2º ou 3º ciclo aprenderiam inglês com uma perna às costas, que comparado com a nossa língua é de uma simplicidade confrangedora.

1 comment:

Pedro F. Ferreira said...

Ora nem mais, o gosto pela leitura começa no exemplo que deve ser dado em casa.