October 30, 2005

EDP

Sou um privilegiado. Moro numa da zonas mais agradáveis de Portugal Continental: no Concelho de Sintra, onde acaba a estrada de Monserrate. Moro no meio de pinheiros, acácias, carvalhos, plátanos e castanheiros. Apesar de me encontrar a uma mera vintena e meia de quilómetros da Capital, o ambiente que me rodeia é aldeão, onde todos se conhecem e se reúnem no cafézito local para assistir ao Benfica x Porto entre gritos, apupos, palavrões, copos e risos.
Aldeola pequena e rústica, soube acolher uma enorme comunidade eslava sem atritos e já com laços de amizade. É comum, no decorrer dos jogos importantes, entre o habitual "passa a bola, cabrão!", ouvir um arrevesado "Fuóda-ze! passa o bola!". Aliás, no decorrer do café matinal tomado antes de enfrentar o trânsito caótico, apercebi-me de um diálogo entre dois ucranianos ou coisa que o valha, em que um afirmava qualquer coisa como "... zdradzvuitsie na voda zdarovia...", ao que o segundo respondeu, numa pose tipicamente lusa, "fuóóódaze...!", que diz tudo. Não me admiraria que a cultura que deixou no Império do Sol Nascente o comum "arigato", e deixou pelo mundo inteiro inúmeras formas do vocábulo "laranja", deixasse agora uma contribuição indelével no vocabulário eslavo, passando-se a ouvir de Kiev a Vladivostok expressões como "fuódaze na zdarovie, tovarich" ou coisa do género.

Voltando ao tema. Apesar de habitar uma terreola, esta encontra-se dentro do raio de acção da Metrópole, o que significa estradas do século XX (ou pelo menos do final do século XIX), TV Cabo, cobertura imaculada de rede de telemóvel, centro de saúde, correios, farmácia e toda a restante palafernália da Civilização. Com uma excepção. O serviço da EDP!
Numa terra onde, quando chove, o céu não chora como dizia o poeta, mas faz birras dignas da minha filha de sete anos, basta a cargazita d'água costumeira para ficarmos todos à luz da vela, petromax ou da porcaria da lanterna para qual me esqueço sempre de comprar as pilhas. Faz algum sentido que uma empresa que tem um lucro anual astronómico não se dedique a actualizar as centrais transformadoras, cablagens e restantes gigajogas que permitam ao comum mortal não ouvir um trovão e desatar a correr feito maníaco à procura do coto de vela que sobrou do apagão da semana anterior?
Valerá a pena falar de produtividade com estes exemplos?

1 comment:

Roberto Iza Valdés said...
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