De um lado, lembrou-se o Estado de encerrar meia-dúzia de maternidades onde apenas nasciam uma dezena de crianças por ano, com o argumento de racionalizar custos e recursos. Do outro lado da barricada, levantaram-se as vozes das populações, autarcas e demais atingidos pela medida, reclamando o direito de nascer na sua terra.
Não conheço o problema o suficiente para o poder debater seriamente. A não ser numa pequena questão.
Todos os governos sem excepção clamam que é necessário combater a desertificação do Interior. Cavaco lançou os projectos rodoviários, por exemplo, com esse argumento. Guterres continuou a obra dos governos anteriores com esse argumento. Sócrates defende as SCUT com esse mesmo argumento. Revelou-se que, afinal, as auto-estradas só ajudaram as populações a sair mais depressa do interior do país em direcção à orla costeira, muitas vezes marrando mortalmente umas nas outras.
A desertificação do Interior só se combate dando às populações aí residentes as mesmas condições que teriam no resto do país: condições de trabalho, condições salariais, condições de segurança, acesso a escolas e a outros equipamentos básicos para o seu bem-estar... como uma simples maternidade. Ou uma piscina.
Se um casal jovem, beirão, alentejano ou transmontano, decidir constituir família e se deparar com a ausência daquilo que lhe permite garantir o nascimento e crescimento saudável de um putativo rebento - seja a maternidade, o infantário ou um vendedor confiável de xanax - das duas uma: ou não procria, ou muda-se para Lisboa, para o Porto ou, com o azar costumeiro do portuga, para o Cacém.
Aquilo que a medida socratiana revela é, antes de mais, uma total falta de ideias para o país e para o seu futuro.
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