
Confesso... enquanto escrevo este post tenho um cigarro preso precariamente aos lábios, não violando a letra da lei porque estou em casa, mas violando a lei de bons costumes que se vão instalando por cá.
Eu tinha de falar sobre a nova lei do tabaco. É quase compulsivo. Resisti quatro dias mas não aguento mais. Vamos por partes...
Em abstracto, não faz sentido que um não-fumador seja obrigado a inalar o meu fumo. Ainda em abstracto, qualquer ambiente livre de fumo é mais agradável do que se o ar estiver sobrecarregado de fumo. Não é uma questão de se ser fumador ou não, é uma questão de bom-senso. No entanto, há que salientar algo: todos os cidadãos, qualquer que seja a sua cor, sexo, religião, opção sexual ou hábito são iguais entre si, numa sociedade democrática e civilizada. Deste modo, nem sempre a vontade da maioria se pode impôr a uma qualquer minoria.
Quer agrade aos não-fumadores quer não, fumar é legal. É um vício - prazer, hábito - que o Estado não só não sanciona legalmente, como lucra directamente através dos impostos associados ao consumo do tabaco. Por outro lado, foram os Estados que promoveram o consumo alargado do tabaco, nomeadamente em períodos de guerra para aliviar o stress de batalha. Assim, é necessário ter algum cuidado na linguagem moralista dos governos e seus representantes.
Assim, temos por um lado o direito dos não-fumadores a respirar ar puro, e por outro o direito dos fumadores a fumar. Qualquer lei tem de ter estes dois em conta, não podendo favorecer uns em detrimento dos outros.
Se reclamar o direito a fumar em transportes públicos ou estabelecimentos de ensino é ridículo, já não o é em restaurantes, bares ou discotecas. Um dos problemas desta lei é que quase considera ilegal fumar, quando não é esse o caso. Não sendo esse o caso, há que ter muito cuidado com as restrições que se levantam a um acto não só legal como socialmente aceite.
Há num entanto um lado mais perverso nesta lei: o incentivo social que leva à sua existência. Nas sociedades ocidentais há uma tendência para higienizar a sociedade, pondo termo ou ilegalizando tudo aquilo que possa ser incorrecto, que possa fazer mal à saúde física ou mental. Uma tentação de Big Brother dos governos. A União Europeia é profícua neste furor politicamente correcto: a salsicha inglesa faz mal? Proíba-se! o Pastis é tóxico? Bane-se! A aguardente de Medronho intoxica? Acabe-se com ela!
Este tipo de forma de pensar é ridículo, porque assim tudo faz mal e tudo deve ser proibido. Se eu beber 25 litros de leite seguidos morro sem fígado; duas panelas de canja de galinha dar-me-iam um diarreia terminal; consumir 30 litros seguidos da água mais pura dos Alpes fazem a mais resistente bexiga explodir violentamente, com resultados desastrosos para o dono da dita. E assim sucessivamente.
Claro que o fumo passivo faz mal, mas será necessário estar fechado numa discoteca fumarenta durante oito horas por dia, sete dias por semana para vir a morrer de cancro do pulmão daí a vinte anos. Aliás, o argumento da qualidade do ar é perverso, porque não vejo quase nenhum não-fumador a comprar veículos híbridos, a utilizar apenas transportes públicos durante a semana ou a exigir que as empresas públicas banam os veículos a diesel das suas frotas automóveis.
Cutting a long story short, vou continuar a fumar porque gosto de o fazer. Vou continuar a fumar onde puder e, por vezes, onde não puder, como sempre fiz.
7 comments:
20 anos passam a correr, sendo que correr é algo que alguém exposto ao fumo não pode fazer ao fim de uma semana apanhar com o fumo alheio.
Se eu pegar no meu carro a gasolina e o estacionar dentro do teu gabinete com o motor a funcionar, contigo necessariamente lá dentro, estarei a poluir mais ou menos do que se o fizer na rua?
E fumar mata. Não é mentira nenhuma. Tal como pôr bombas também mata e ninguém pode negá-lo. Enquanto detonarem as bombas num cenário de guerra, são um mal necessário, aplacável com um cigarrito. Quando as detonam em bares, restaurantes, comboios, escolas e igrejas, são uma catástrofe, e matam o mesmo número de pessoas, só que muito mais rapidamente que o belo do cigarrito.
Guarda os teus pregos para ti, sim? A qualidade de vida agradece.
Claro que fumar mata, Sílvia. E a alheira de Mirandela também. E as tripas enfarinhadas também. O que não quer dizer que eu como fumador tenha o direito de atirar o meu fumo para cima seja de quem for, com ou sem lei. Só não quero leis que criem cidadãos de primeira e de segunda.
Quem é quem (ou era) cidadão de primeira ou de segunda?
Já agora podiam deixar os drogados injectarem-se na rua ou onde for que lhes der a traça, os predadores sexuais atacarem onde bem lhes apetecer, e os viciados em alheiras levarem a caça à extinção... não queremos que se sintam coibidos de serem quem são.
Admite. É muito mais agradável para todos sair, agora.
Claro que é mais agradável sair ou, como me aconteceu, ir ao Cascais Shopping e não sentir aquele arzinho de fumo reciclado. That's not the point.
That IS the point.
O que está limpo não se suja. Ou suja-se só em casa, se essa for a escolha de quem limpa.
And now for something completely different... the point!
O "point" são dois:
1. A liberdade de cada um acaba onde a do outro começa, para evitar o que Tocqueville definiu como Tirania da Maioria, pelo que se deve ter algum cuidado com a restringimento dos direitos das minorias. Apesar da questão do tabaco ser menor, pode levar a alguns desenvolvimentos sociais interessantes relativamente aos homossexuais ou aos amantes de alheira de Mirandela, se se tornar práctica corrente numa sociedade.
2. Nenhuma lei, num estado de direito, pode tentar fazer dos cidadãos polícias uns dos outros, promovendo a denúncia ou a "queixa". Ainda voltamos ao tempo da outra senhora ou, pior ainda, tornamo-nos suíços.
Tens um point, mas só se conseguires fumar e controlar o fumo tão bem como controlas uma alheira de Mirandela ou um gay apaixonado. Aí, por mim, tudo bem.
Já a parte dos portugueses queixinhas, é a única coisa que funciona. Aproveite-se a memória genérica do tempo da PIDE e misture-se com a inata brandura de costumes, e pode ser que haja alguns não-fumadores que, finalmente, sejam considerados pelos fumadores quando se sentem incomodados pelo fumo que, admite, ninguém controla.
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