October 06, 2004

Educação

No Público de hoje podemos ler que "A ministra da Educação defendeu hoje na Assembleia da República uma redução da mobilidade dos docentes, de forma a criar maior estabilidade no sistema educativo, e avançou a hipótese de recondução de docentes nas escolas onde ficaram este ano".

Já no Diário Digital diz-se que "O Ministério da Educação vai apresentar três alternativas às escolas para poderem cumprir o programa lectivo até ao final do ano escolar. Uma das propostas visa o apoio pedagógico aos alunos".

Mais uma vez, reconhecem que puseram o pé na dita e estão a ter dificuldade em limpar o sapato. O que vale é que este tema só vai ser polémico até os media se lembrarem dele. Daqui a uns dias o ministro B ou C faz outra asneira qualquer, os media pegam nela e esquecem a primeira. E é como se deixasse de haver problemas com a Educação.

Como pai, começo a compreender a minha nebulosa decisão de colocar os meus filhos num colégio particular. Estrangeiro (ainda por cima sou pedante). As razões, que há seis anos eram um pouco incertas, tornam-se agora certezas: os meus filhos aprenderam a ler e escrever no kindergarten (é assim que se escreve, é), com cinco anos; o mais velho, agora na quarta-classe, aprende com uma facilidade enorme o nosso programa do 1º ano do ciclo (no meu tempo eram estas as nomenclaturas dos vários anos e raios-me-partam se vou mudar agora); desde os quatro anos que são bilingues; não tenho que me preocupar com violência ou droga dentro da escola; não gasto um avo em livros; a escola em si, apesar de estar em falta com alguns equipamentos básicos, é de uma higiene e segurança fabulosas.
Claro que há o reverso da medalha: pago uma mensalidade capaz de me endividar até ao ano 2158.

Infelizmente, sou obrigado a inúmeros sacrifícios porque o nosso Estado não cumpre uma das suas funções básicas. Sinceramente, não me apetece muito que os meus filhos sejam seriamente agredidos antes de terem idade para se defenderem. Também não me apetece que experimentem quaisquer drogas antes de saberem conjugar os tempos de verbos todos (ao menos que esperem até aos 16 anos, como o papá). Não me apetece, também, que acabem a primária ou o liceu como perfeitos iletrados.

Como pai (ir)responsável, quero que os meus rebentos tenham a educação necessária para poderem chegar o mais longe na sua vida adulta, enquanto pessoas. Para isso não posso contar com a Educação que o Estado providencia e tenho de o fazer por minha conta. Do mesmo modo que procedo quando tenho problemas de saúde. Ou de segurança. Afinal, pagamos impostos para quê?

Quando o Estado perceber que a Educação é a base do desenvolvimento do país, talvez faça aquilo que deve fazer: acabar com a dança anual de professores; avaliar os professores e as escolas no fim de cada ano lectivo; criar um programa de ensino estável, que não mude sempre o ministro lhe apetece, e que suporte um determinado modelo de desenvolvimento do país; criar livros escolares pensados, reutilizáveis de ano para ano; acabar com a escolha de carreira profissional dos alunos aos 14 anos e manter o "liceu" comum até ao 11º ano, atrasando essa escolha para idades mais maduras; iniciar o "programa profissionalizante" apenas no 12º ano, preparando a sério os miúdos para a universidade; avaliar os alunos regularmente, através de exames nos momentos críticos, ou seja, na 4ª classe, 2º ano do ciclo, 5º e 7º ano (trad. 4º , 6º , 9º e 11º ano).
São estas as soluções que me lembro, sem me cansar muito a pensar. Talvez haja outras. Sejam quais forem as soluções, são extremamente urgentes porque estamos a hipotecar de forma quase definitiva a hipótese de nos desenvolvermos. O desenvolvimento de um país não é representado por estradas, pontes ou túneis, ou por quaisquer bens materiais. O Desenvolvimento passa apenas pela qualidade de pessoas que um país contém. O resto vem depois. Naturalmente.

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