November 22, 2004

... that is the question

Concorda com a Carta de Direitos Fundamentais, a regra das votações por maioria qualificada e o novo quadro institucional da União Europeia, nos termos constantes da Constituição para a Europa?

Eis a famosa pergunta, que tanto tem inflamado políticos, comentadores, jornalistas e a D. Alzira-do-carrinho-das-castanhas-na-esquina-do-saldanha.
Muito honestamente, a pergunta não me faz confusão nenhuma: o português é claro, a questão é colocada directamente sobre três pontos óbvios e acaba num ponto de interrogação, o que torna o texto numa... pergunta.

Mas eu tenho outra. Já lá vamos.

Imaginem um petiz que entra para escola, 6 anitos redondos de nervos, e a stôra em vez de lhe dizer, na sua voz estridente de professora colocada à última da hora em Unhais de Cima, "Bom dia menino Francisco", lhe pergunta de chofre "Então, Chiquinho, quantos são 368 x 114?". Imaginem o resultado: puto a correr aos gritos, borradinho de medo, e, depois de chegado a casa, a mãe nunca mais o manda à escola; 50 anos depois encontraremos o Ti Francisco a pastar cabras nas serranias de Unhais.

O resultado da pergunta decidida pela classe política (os que deviam ter ficado em Unhais) tem exactamente o mesmo resultado: Concorda com a Carta de Direitos Fundamentais... esperem lá um segundo. A-Carta-de-Direitos... sorry... never heard of... I'm just a hooligan, here for the Euro. Qual carta? Quais Direitos? Se são Fundamentais, protegem o Queijo da Serra?

Atão... agora decide-se primeiro qual a pergunta, e depois é que se ensina a tabuada? O novo quadro institucional da União Europeia? Qual quadro? que instituições? Já agora, qual União? Como é que a pergunta é elaborada sem se esclarecerem as pessoas primeiro? Sem se "sentir" quais são as verdadeiras preocupações dos cidadãos em relação à Constituição?
O alheamento do cidadão médio em relação à coisa europeia já é tal que qualquer trapalhada deste tipo só o afasta de vez dos assuntos europeus.

A minha pergunta, como simples cidadão, é simples: se me estão a pedir a opinião (coisa rara e inaudita) sobre três temas específicos, não haverá outros que sejam tão ou mais importantes, os quais suas excelências não querem ver discutidos entre mim e a D. Alzira?

Comecem pelo óbvio. Coloquem o texto completo do tratado (ou constituição ou lá que é) na net, publiquem-no no Correio da Manhã ou enviem-no pelo correio. Depois expliquem-no, todo, sem omitir aquele pedacito que diz, em letra muito pequena tipo apólice de seguro, "e os portugueses passam a ter de andar todos vestidos de camisolas xadrez verde e azul bébé". Expliquem aos portugueses porque é que a Europa precisa de uma Constituição (a Inglaterra é uma nação há mil anos e nunca precisou de um maço de papel almaço para defender os direitos dos seus cidadãos, ou para saber o seu lugar no mundo).
Depois é fácil elaborar a perguntita: Concorda que Portugal ratifique o Tratado da Constituição Europeia?

Não seria uma pergunta mais honesta, mais simples de entender, mais clara e, principalmente, curta? Não seria melhor que os portugueses votassem em consciência, cientes daquilo que o eldorado europeu lhes reserva? Não seria melhor que o cidadão médio sentisse que tinha feito uma vedadeira escolha?

Não seria bom que a classe política partilhasse de vez em quando as decisões com quem julgam que representam?

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