December 15, 2004

tomo I

Ofereceram-me um livro. Até aqui nada de especial. Acontece a toda a gente, receber livros. E peúgas.

Não é propriamente o meu género de livro, mas lê-se bem. Apesar de ser acerca dos Cavaleiros Templários, tenta resumir-se a factos em vez de ser um bestseller tipo Código DaVinci. Até aqui continua tudo bem. É um livro editado pela Livros do Brasil, de capa mole e pouco imaginativa. Continuamos no campo do "tudo bem, apesar da capa...".

Mas assim que se abre o infólio... pimba! começa tudo a correr mal. As letritas do livro, apesar de dimensão aceitável, foram impressas por um tipógrafo com Alzheimer, mal impressas e desfocadas. O papel estaria óptimo numa sebenta de escola dos anos sessenta, mas não num livro que, pela editora e pelo tema, mereceria um pouco melhor - até papel de fotocópia era melhor. Ou papel almaço.

À medida que começo a leitura não sei o que deva fazer: se prestar atenção ao conteúdo do texto se tentar não me esquecer da contagem dos erros ortográficos. Até dói. O pobre do revisor deve ter sido obrigado a ler o texto dactilografado do tradutor em menos de 12 horas, e portanto borrifou-se para o assunto, pôs de imediato um V de visto no frontespício e foi para a Kapital ter com o primeiro-ministro e com o ministro da defesa.

Por curiosidade, passei numa livraria e vi o preço do livro. Ia-me dando um treco. Também por curiosidade, procurei na net a versão original, em inglês, do livro e tive outro treco (costumo ter muitos por dia, principalmente quando oiço os nossos governantes a falar): então não é que o senhor que escreveu a obra o fez num inglês simples, corriqueiro, para qualquer inglês ou americano entender (e isto diz muito do nível de linguagem utilizado)? Mas o nosso tradutor pensou que não, nem pensar. Se é livro sério, ainda por cima sobre os famosos Cavaleiros, tem de ser escrito numa linguagem digna da época da acção, com muitas palavrinhas multissilábicas e muitas outras que normalmente só se usam na redacção do Código Civil. Se assim não fosse qualquer um poderia entender o livro, e a Cultura e a História só podem ser acessíveis a quem tenha no mínimo um Mestrado em língua Lusa e faça palavras cruzadas em Latim.

É por isso que deixei de ler autores estrangeiros traduzidos. Este meu hábito começou com o Senhor dos Anéis. Toda a gente falava muito desse livro, na altura e, como adolescente influenciável, corri a comprar os três livros editados pela Europa-América. Li o primeiro em português. Fartei-me dos erros ortográficos e corri seca e meca à procura duma versão original (três volumes num só... não é propriamente uma edição de bolso). Assim que o comecei a ler tive um ataque de riso monumental: a tradução era tão má que não se ficava pelos erros ortográficos; o próprio significado era completamente deturpado.

Será que uma coisa tão simples, como editar um livro, está completamente fora do nosso alcance?

P. S. Só por curiosidade: a versão original do livro, com uma edição decentemente impressa custa na Amazon.co.uk um terço do preço. Eu sei que as tiragens lá fora são muito superiores às de cá do burgo mas... um terço? chiça!

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