April 26, 2005

31 anos




Fez ontem 31 anos que Portugal deu uma volta de 180° na sua pequena e mesquinha sociedade. E durante esses 31 anos muita coisa mudou entretanto: temos liberdade de expressão e de circulação, temos maior acesso à informação e aos produtos externos, reduzimo-nos à nossa expressão territorial original, temos uma sociedade mais aberta e cosmopolita, mais igualitária e justa.
Mas no essencial continuamos iguais àquilo que éramos antes - ou iguais a nós próprios, como preferirem. Continuamos mesquinhos e incultos, de vistas estreitas, inoperantes, com uma mania das grandezas insuportável. Como estes problemas não se resolvem com Golpes de Estado ficámos exactamente na mesma.

Aquilo que era o sonho do 25 de Abril - ou de alguns dos seus intervenientes -, como ter uma sociedade mais participativa, verdadeiramente democrática, com uma Justiça forte e paritária, com um elevado nível de educação e informação, não aconteceu de todo. Por ignorância e falta de formação daqueles que nos governaram desde essa data; por cupidez; por incompetência; em muitos casos por pura e simples estupidez. Principalmente porque investimos no acessório e não no essencial.

A herança mais pesada de Salazar não era nem o ouro nem a guerra colonial, mas sim o total desprezo pela Educação. Porque esta era perigosa para o regime.
Após o 25 de Abril investiu-se em muita coisa, como betão, alfaias, nacionalizações e telemóveis, mas não se investiu naquilo que era realmente importante: na Educação. Nenhum Povo pode ser verdadeiramente livre na ignorância porque não pode decidir em consciência o seu destino. Sem Educação não há capacidade de crescimento sustentado, seja ele financeiro ou civilizacional. Sem Educação não há competitividade nem desenvolvimento. Ao longo destas três décadas investimos nos andares superiores - estradas, redes de telecomunicações, etc. - e esquecemo-nos das fundações de qualquer Sociedade moderna: Educação e Justiça.

Enquanto o investimento e o esforço não forem feitos onde é realmente necessário continuaremos os anões sociais que realmente somos, não importando o número de estádios de futebol que tenhamos. Continuaremos mesquinhos e pequeninos, apenas interessados na Quinta das Vacas Loucas e no FCP versus SLB, na novela e no valor do pópó de segunda.

Trinta e um anos depois, estamos exactamente onde estávamos. E continuaremos a estar enquanto não fizermos aquilo que é o mais difícil e o mais necessário.

1 comment:

ABA said...

Caro João,
Esta é uma visão pessimista!
Nem tudo corre bem, é certo, mas demos passos enormes no sentido de nos aproximarmos do desenvolvimento por que o país anseia.
Tornámos a nossa economia mais aberta, mais competitiva, conseguimos captar investimento estrangeiro, exportamos mais, o facto de estarmos na zona euro confere-nos maior estabilidade económica.
Já não é necessário ser filho de pais ricos para ter acesso a educação de excelência - temos grandes universidades, como a do Minho, por exemplo..
Não nos esqueçamos porém de que somos um pequeno e periférico país..
Não há varinhas de condão!
Temos sim de investir na formação de quadros e ser competitivos, que os resultados aparecem.
Temos de acreditar em nós!

Abraço